Governo opina no STF contra liberação irrestrita de maconha para uso medicinal

G1

Documento, assinado por Michel Temer, argumenta que é preciso ter controle porque se trata de saúde pública. Caso será julgado em plenário, por decisão de Rosa Weber.

Por Mariana Oliveira, TV Globo, Brasília

 A advocacia-Geral da União (AGU) encaminhou ao Supremo Tribunal Federal (STF) parecer contrário à liberação irrestrita da maconha para fins medicinais e terapêuticos. O documento, assinado pelo presidente Michel Temer, trata de ação apresentada pelo PPS, que pede para a Corte julgar inconstitucional dispositivos legais que criminalizam o plantio, o cultivo, a colheita e aquisição de cannabis.

Ao apresentar a ação, no mês de maio deste ano, o partido afirmou que a intenção é assegurar o uso para fins medicinais e a importação de medicamentos à base de canabidiol, princípio ativo da maconha.

 

A ministra Rosa Weber, relatora da ação, decidiu que vai levar o caso diretamente ao plenário, sem análise do pedido de liminar para garantir a liberação.

Segundo o governo, o PPS pede a “descriminalização da cannabis sativa para fins terapêuticos, sem qualquer controle do Estado”, mas a AGU diz que é preciso ter controle porque se trata da saúde pública.

 

“Entretanto, numa área tão sensível quanto a saúde, torna-se necessária a adoção de critérios e requisitos rígidos, uma vez que apesar de a Constituição Federal estabelecer que a saúde é direito de todos c dever do Estado, ao mesmo tempo exige uma Administração Pública responsável e comprometida com os resultados a serem apresentados à sociedade”, diz o governo no documento.

 

Ainda de acordo com o parecer, o governo “não se mostra insensível ao drama daqueles que necessitam do uso medicinal” e por isso a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) traz critérios técnicos para uso e que se pode plantar para uso medicinal mediante autorização judicial.

 

“Nesse ponto, destaque-se que a ANVISA já incluiu derivados da canabidiol na lista de substâncias psicotrópicas vendidas no Brasil com receita tipo A. Como se pode observar, não merece prosperar o pedido autoral, uma vez que o direito à saúde daqueles que necessitam do uso medicinal da cannabis está perfeitamente garantido pela lei e demais atos normativos”, conclui o governo.

Publicado em Notícias

Cigarro com baixo teor de maconha vira sucesso e causa debate na Suíça

Jornal Folha de S. Paulo

Diogo Bercito/Folhapress
Maço de cigarro com maconha vendido na Suíça; país tem tolerância mais alta do que outros europeus

DIOGO BERCITO ENVIADO ESPECIAL A ASCONA (SUÍÇA)

 

Por fora, o cigarro da marca suíça Heimat é trivial: cilíndrico, das dimensões de um dedo indicador, branco e com a bundinha marrom. Mas o aroma denuncia. A fumaça que sai dele, espiralada, remete a um matagal.

É um cigarro de maconha que pode ser comprado em supermercados em toda a Suíça por qualquer pessoa maior de 18 anos –uma pequena revolução que criou um intenso debate social em torno deste produto, lançado no último mês. É o primeiro desse tipo no mundo.

Os maços esgotam assim que chegam às prateleiras, e suíços podem fumar maconha como fumariam um cigarro comum, sem ter que recorrer a lojas especializadas.

A venda do Heimat é possível porque a Suíça descriminalizou em 2011 os produtos com menos de 1% de THC, a substância psicoativa da maconha, irrigando assim um mercado que agora beira os R$ 320 milhões anuais.

A tolerância é bastante mais alta do que a de outros países europeus –alguns deles só toleram 0,2%.O produto da Heimat tem 0,3%, mas ainda assim a quantidade é baixa: cada maço de 20 cigarros tem apenas quatro gramas de THC. São 80% de tabaco.

Com essas quatro gramas é, em tese, difícil de se inebriar. Alguns usuários, porém, relatam relaxamento e algum enevoamento depois de tragar a fumaça, e a empresa recomenda não dirigir depois de fumar o cigarro.

O cigarro da Heimat contém também 20% de CBD, outra substância presente na maconha, e que os cientistas acreditam ser capaz de aliviar dor e inflamações.

CHEIROSO

A empresa Heimat foi criada em 2016 por Björn Koch e seu irmão com a proposta de trabalhar apenas com tabaco suíço. Os maços só continham fumo, no começo, e só recentemente incluíram a maconha -suíça, também.

“Foi complicado no começo, e houve bastante discussão com as autoridades e os fornecedores”, diz à Folha.

Mas o produto se espalhou pelo país como fogo no mato seco: o Heimat é vendido pela gigante rede de supermercados Coop, presente mesmo em pequenos vilarejos na beirada dos lagos suíços.

Cada maço custa o equivalente a R$ 64, o dobro do valor da caixinha sem maconha, mas a produção de 12 mil maços por semana –lenta porque o maquinário da Heimat é de pequeno porte– esgota em poucos dias.

Alessandro Mosca, 24, vende o produto via internet na cidade de Ascona, próxima à fronteira italiana. Os 20 maços que conseguiu dos fornecedores foram comprados em só uma semana.

Ele próprio é um consumidor, e guardou um pacotinho consigo. “Algumas pessoas só gostam do sabor da maconha e não querem ficar doidonas”, diz à reportagem.

“Há uma alta procura por produtos de maconha devido a seu gosto e aroma”, diz Yvette Petillon, uma porta-voz do supermercado Coop. “Atualmente temos uma demanda maior que a oferta.”

Mathilde Missioneiro – 24.mar.2017/Folhapress
GENEBRA, SUÍÇA, 24.03.2017: MACONHA-LEGALIZAÇÃO - Produtos à base de cannabis à venda em loja de Genebra na Suíça. Após a legalização da maconha com teor de até 1% de THC (Tetra-hidrocanabino), o governo suíço enfrenta a comercialização em lojas e bancas especializadas em comidas e bebidas, sem condições de fazer a devida fiscalização quanto à regularidade da substância. (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)
Produtos à base de cannabis à venda em loja de Genebra, na Suíça

DEFUMADO

A venda dos cigarros de maconha, ao lado da crescente tolerância suíça a esses produtos, parece ser uma boa aposta à economia do país. Há expectativa de que até mesmo o turismo seja impactado –com visitantes somando os maços de Heimat aos chocolates sofisticados pelos quais a Suíça é conhecida.

No entanto, há também receio por parte das autoridades sanitárias de que o fácil acesso ao THC e ao CBD, outro componente da maconha, incentivem maiores taxas de fumo, misturando-se ao mercado mais amplo das drogas.

“Eles não querem que os jovens fumem, mas o produto é legal, com baixas porcentagens. Não tivemos problemas”, diz o produtor Koch.

Há relatos de que hotéis e restaurantes têm restringido o fumo de cigarros de maconha devido ao cheiro, que –apesar da legalidade– ainda desperta a curiosidade de outros clientes e da polícia.

Em Ticino, uma das regiões da Suíça onde a venda de maconha requer autorização especial, os maços da Heimat foram retiradas das prateleiras dos supermercados até segunda ordem das autoridades locais.

Países vizinhos como Alemanha e Áustria lembraram seus cidadãos mais entusiasmados de que é proibido cruzar a fronteira com eles.

Publicado em Notícias

Attention and memory deficits in crack-cocaine users persist over four weeks of abstinence

Journal of Substance Abuse Treatment

Volume 81, October 2017, Pages 73-78

https://doi.org/10.1016/j.jsat.2017.08.002Get rights and content

Priscila P.Almeida,

Gerardo M.de Araujo Filho,
Stella M.Malta,
Ronaldo R.Laranjeira,
Ana Cecilia R.P.Marques,
Rodrigo A.Bressan,
Acioly L.T.Lacerda
  • LiNC – Laboratório Interdisciplinar de Neurociências Clínicas, Departamento de Psiquiatria, Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Brazil
  • Unidade de Pesquisas em Álcool e Drogas (UNIAD), Departamento de Psiquiatria, Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Brazil

Highlights

• Crack-cocaine addiction is an important public health problem worldwide.
• Studies observed persistent cognitive deficits in cocaine users even in abstinence.
• Cognitive evaluations of 35 individuals with crack-cocaine dependence were performed.
• A control group of 33 healthy individuals was submitted to the same evaluations.
• Crack-cocaine group presented persistent attention/memory deficits over abstinence.

Abstract

Background

Crack-cocaine addiction is an important public health problem worldwide. Although there is not a consensus, preliminary evidence has suggested that cognitive impairments in patients with crack-cocaine dependence persist during abstinence, affecting different neuropsychological domains. However, few studies have prospectively evaluated those deficits in different phases of abstinence.

Objectives

The main aim of present study was to examine neuropsychological performance of patients with crack-cocaine dependence during early abstinence and after four weeks, comparing with matched controls.

Methods

Thirty-five males with crack-cocaine dependence, aged 18 to 50 years, who met DSM-IV criteria for cocaine dependence and a control group of 33 healthy men were enrolled. They were assessed through Block Design, Digit Span and Vocabulary of Wechsler Adult Intelligence Scale (WAIS-III), the Rey Auditory Learning Test (RAVLT) and the Verbal Fluency (FAS) between 3 and 10 days (mean of 6.1 ± 2.0 days) and after 4 weeks of abstinence.

Results

Compared to controls, the crack-cocaine dependent group exhibited deficits in cognitive performance affecting attention, verbal memory and learning tasks in early withdrawal. Most of the cognitive deficits persisted after four weeks of abstinence.

Conclusion

Present results observed that the group of patients with crack-cocaine dependence presented persistent deficits affecting memory and attention even after four weeks of abstinence, confirming previous studies that had disclosed such cognitive impairments.

Keywords

Crack-cocaine dependence
Cognitive deficits
Neuropsychological evaluation
Publicado em Notícias

XXIV Congresso Brasileiro – ABEAD


Imagem | Publicado em por

Menor atira no tio após galinhas comerem pés de maconha plantados em quintal

Publicado em Notícias

‘Irmã’ do crack, droga se dissemina na periferia de cidades da Argentina

Jornal Folha de S. Paulo

GABRIEL BOSA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE BUENOS AIRES

João Pina – jan.2008/The New York Times

Viciada mostra a droga paco, que ela comercializa, em favela de Buenos Aires

Um sorriso largo se abre com facilidade e ilumina a face levemente morena e arredondada de Lorena. A cada poucas palavras ditas em um espanhol rápido, pausa para um riso leve, como se aquela fosse a deixa para eu rascunhar em meu caderno parte da história que ela me conta. São pouco mais de 10 horas de uma manhã de domingo gelada e chuvosa em Buenos Aires. Estamos sentados em cadeiras de ferro com encostos plásticos dentro de um pequeno salão de paredes brancas e desbotadas.

A mulher divide a atenção da nossa conversa com um prato plástico à sua frente servido de pequenos pães e um copo quente de café. Beirando os 40 anos, Lorena mantém um ar jovial com parte do seu cabelo escuro preso para trás e sua mochila preta com detalhes em rosa. Vestindo apenas uma calça de moletom cinza, blusa vermelha e jaqueta preta com capuz, a mulher parece bastante confortável, apesar do tempo terrível que castiga a capital portenha.

A história de Lucero Lorena Vanessa, seu nome de batismo, é apenas mais uma em meio às milhares que enchem as villas, como são chamadas as favelas e zonas de risco da Argentina. A mulher passa as noites em uma cama improvisada às margens de Puerto Madero, tradicional endereço dos mais caros restaurantes e bistrôs de Buenos Aires, e sobrevive da venda informal de produtos nas ruas da cidade. Lorena é mãe de cinco filhos, com quem aos poucos está retomando contato. As crianças vivem com a família de sua mãe na província de San Luiz, a 794 quilômetros da capital.

O EFEITO

A forma descontraída de falar e os inocentes sorrisos que exibe em intervalos de poucos segundos contrastam drasticamente com o teor dos relatos que descreve em minuciosos detalhes. Há três anos Lorena batalha contra o vício em paco, uma droga disseminada entre as camadas mais pobres da Argentina. Assim como o crack, o paco é um subproduto da cocaína. A droga se resume em uma pedra, altamente tóxica, barata e com grau extremo de adicção, consumida em cachimbos improvisados com latas e canos.

“Você coloca fogo na pedra e o efeito é imediato. Você surta, fica desesperado, completamente louco. A paranoia é muito grande, você fica olhando para todos os lados, achando que vai aparecer alguém para te roubar, para te apunhalar”, descreve.

O êxtase da tragada se extingue em minutos. A sensação de vazio e depressão que seguem são os impulsionadores para consumir a próxima pedra, uma espiral de euforia e abstinência que pode se estender por horas ou dias.

“A droga é muito mais forte que nós. Ela nos controla, nos faz fazer muitas coisas, roubar, assassinar, sequestrar”, expõe Lorena, afirmando que já chegou à consumir 20 mil pesos em paco, aproximadamente quatro mil reais, em um único dia.

Sem demonstrar se abalar e sempre com uma entonação alegre, a mulher descreve a primeira experiência com o paco, através de um amigo em uma casa abandonada, e todos os clichês subsequentes de quem é dependente de uma droga extrema: o distanciamento do convívio familiar, fugas de casa, a rotina de sobrevivência em meios a outros usuários e traficantes nas villas, e os pequenos delitos cometidos para sustentar o vício.

TRAGÉDIA

A escalada no vício eclodiu em 2014. Mesmo grávida do sétimo filho, Lorena manteve a rotina destrutiva de consumo diário de paco e bebidas alcoólicas. O abuso das substâncias causou a perda do filho que carregava no ventre pelas ruas de Buenos Aires. No mesmo dia, um telefonema da casa de sua mãe lhe avisara que um de seus filhos havia morrido eletrocutado enquanto jogava futebol com outras crianças nas ruas de San Luiz.

“Foi um trauma, em um dia perdi dois filhos”, resume em voz grave enquanto me encara fixamente com seus olhos castanhos durante um raro momento de seriedade. A culpa pela morte dos filhos poderia ter sido o pretexto para que Lorena se deixasse vencer de vez pelo paco. Ao contrário, a mulher encontrou na tragédia toda a força que precisava para sair do seu inferno particular.

“Eu parei no dia seguinte por força própria. Parei para que eu possa voltar a conviver com minha família, para que possa ver meus filhos de novo”.

REFLEXO DA CRISE

O surgimento do paco nas zonas mais vulneráveis de Buenos Aires é mais um reflexo da grave crise econômica que assolou a Argentina na virada do novo milênio. A disparada vertiginosa da classe pobre do país, alcançando pico de 70% em 2002, criou o cenário ideal para a disseminação da droga barata e de fácil preparação.

Segundo os dados do Observatorio Argentindo de Drogas (OAD), vinculado à Secretaría de Políticas Integrales sobre Drogas de La Nación Argetina (Sedronar), entre 2004 e 2010, houve um aumento no uso de drogas ilícitas por parte da população de 12 a 65 anos. O levantamento apontou o crescimento de 1,9% para 3,5% do uso de maconha e de 0,5% para 1,5% do número dos usuários de cocaína. Ainda não havia dados precisos do consumo de paco, mas os pesquisadores estimam que o país concentre aproximadamente 180 mil usuários da “droga dos pobres”.

Apesar da retomada dos investimentos de capitais, a queda do índice de pobreza para 30% e o recente controle financeiro alcançado nos últimos anos, as sequelas causadas pelas pequenas pedras amareladas ainda é latente nas zonas periféricas do país.

“Nem sempre o crescimento da economia está associado à diminuição da pobreza e do narcotráfico. No anos 1990 houve um crescimento econômico, mas significou o aumento da desigualdade entre ricos e pobres e a explosão do narcotráfico”, explica o doutor em Sociologia pela Universidad de Sán Martín, Daniel Schteingart.

Um outro levantamento feito pelo Observatorio de La Deuda Social Argentina (ODSA) da Universidad Católica Argentina (UCA) em parceria com a fundação Konrad Adenauer Stiftung, divulgado em abril deste ano, mostra que, em 2016, 2,9% dos jovens entrevistados havia usado paco ao menos uma vez na vida. O estudo ainda revela que 3,3% dos que admitiram usar drogas alguma vez consomem paco de maneira intensiva e 3,2% de forma ocasional.

João Pina – jan.2008/The New York Times
(NYT28) BUENOS AIRES, Argentina -- Feb. 22, 2008 -- LATAM-CRACK-COCAINE-2 -- A 45-year-old paco user in Ciudad Oculta, a slum in Buenos Aires, which has become a dumping ground for paco, a cheap, low-quality and highly addictive form of crack cocaine, Jan. 2008. Argentina's deep financial crisis in late 2001 turned places like Ciudad Oculta into what are known in the country as villas miserias, or towns of misery, easily exploitable markets of impoverished people looking for escape. (Joao Pina/The New York Times) ORG XMIT: NYT28 ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***
Mulher usa o paco em favela de Buenos Aires, na Argentina

ATENÇÃO

“Eles aparecem todos os dias, pedem comida, água, roupas. Muitos não têm família e vêm apenas para conversar, querem alguém que lhes dê atenção”. Quem fala é Rios Elizabeth, uma das voluntárias da Pastoral Social da igreja Inmaculado Corazón de Maria. O grupo integra uma rede de assistência à população de rua e zonas de risco de Buenos Aires, trabalho replicado em centenas de outros centros religiosos espalhados pela Argentina.

Sem distinguir ou fazer perguntas, os voluntários prestam auxílio para todos que os procuram. Refeições gratuitas, cadastramento em programas sociais, ajuda para reencontrar familiares e o encaminhamento de usuários de drogas para centros de tratamento são algumas das ações realizadas pelas entidades.

“Nós procuramos vagas nas instituições particulares e nas mantidas pelas igrejas. Muitos nos pedem ajuda para sair do vício, mas nem todos conseguem se recuperar. Aqueles que conseguem, nós continuamos dando assistência para evitar as recaídas tirando daquele ambiente que a pessoa estava inserida”, detalha o irmão Mário Massim, responsável pela Pastoral Social.

Os voluntários da paróquia testemunharam a chegada do paco às ruas e villas da capital portenha no início dos 2000 e a tragédia social que seguiu com a disseminação da droga entre as classes mais periféricas da população. Habituados em prestar assistência para milhares de adictos em narcóticos, a Pastoral Social precisou se readequar para lidar com a nova demanda.

“Antes era apenas cocaína e maconha, então o paco veio como uma onda. Não há distinção de idade ou de gênero dos usuários, alguns têm 30, 40 anos, mas muitos são mais novos”, lamenta Rios.

LA VILLA 31

As vielas estreitas e enlamaçadas da Villa 31 formaram um território fértil para a propagação da “droga dos pobres”. Longe da atenção e interesses do Poder Público, o paco se disseminou como praga em meio aos barracos e tendas da mais famosa zona de vulnerabilidade social da Argentina. A comunidade está incrustada em meio à região central de Buenos Aires, fazendo margem com áreas nobres, como Recoleta e Palermo, e poucos minutos a pé da Casa Rosada, sede do governo nacional, Obelisco, Avenida 9 de Júlio, entre outros pontos turísticos da capital.

Da porta de casa, o líder comunitário, César Luciano Sanabria, acompanhou o estrago causado pelas pequenas pedras amarelas. Ele se mudou para a Villa 31 durante a adolescência, no início dos anos a 1980, época que a comunidade já era reconhecida como uma das mais violentas de Buenos Aires.

“O paco é como um câncer difícil de erradicar”, pontua. “Sempre houve (venda e consumo) de maconha e cocaína, mas agora o paco é a principal droga da Villa. É uma droga fácil de produzir e muito barata”, complementa.

César nos recebe em sua casa de tijolos à vista pintados em marrom escuro. Ele divide o espaço com sua mulher e a primeira filha do casal, nascida há um ano. A morada modesta também abriga o pequeno estúdio da Radio FM 88.1 – La Radio de La Villa 31, à qual é proprietário. Com um mate em mãos e sentado em uma poltrona confortável ao canto da sala escura e repleta de quadros, troféus de campeonatos de futebol e objetos de porcelana, o morador apresenta um pouco do contexto da comunidade para quem não está habituado àquela realidade.

“A Villa pode ser perigosa para os habitantes de outras regiões, mas quem mora aqui se sente seguro. Há um código: não se rouba dos moradores”, garante, embasando seu argumento no número de homicídios registrados na comunidade nos últimos anos: segundo o morador, em 2016, foram 40 assassinatos, contra cinco nos primeiros sete meses de 2017. “Os crimes estão relacionados às bandas de narco (facções de traficantes), cada uma formada por pessoas da mesma nacionalidade. A principal causa da violência está na guerra destes grupos pelos pontos de comércio de drogas”, detalha.

A Villa 31 é a mais emblemática comunidade de Buenos Aires. As primeiras famílias invadiram a área, que até hoje está em disputa entre o Governo Federal e Administração Municipal, em 1929, e desde então não pararam de chegar novos moradores. No início dos anos 1990 uma crescente onda imigratória de povos vizinhos, principalmente paraguaios e bolivianos, gerou um novo boom de crescimento, resultando na criação da Villa 31 Bis. Atualmente a comunidade conta com 32 hectares de extensão e aproximadamente 90 mil habitantes, divididas em 12 bairros, seis de cada lado da Villa.

Uma rua suja, estreita e repleta de comércio divide as duas partes. Em meio à venda de peixes frescos, filhotes de coelhos vivos, frutas, roupas, aparelhos eletrônicos e praticamente tudo que se possa imaginar, se aglomeram barracos de tijolos uns sobre os outros, alguns alcançado até sete pavimentos. As edificações chamam a atenção por suas cores berrantes, como roxo, vermelho e azul, e pelas velhas escadas em formato de caracol enferrujadas pelo passar dos anos.

“Pouca coisa mudou de lá para cá. A principal diferença está na construção das casas, que antes eram feitas de madeira e compensado, e hoje se utilizam outros tipos de materiais”.

PRODUÇÃO SIMPLES

A produção do paco é como a do crack. Os traficantes utilizam as sobras do refinamento de cocaína como matéria-prima, acrescentam bicarbonato de sódio e outros ingredientes, como veneno de rato, e “cozinham” a mistura em cima de uma colher. O processo simples e o uso de produtos de fácil acesso permitem que qualquer barraco ou tenda sirva de laboratório. A droga é comercializada em pequenos invólucros de plástico, a custo de 50 pesos, aproximadamente 10 reais cada.

“É como um doce de leite. Você experimenta e quer de novo, não tem como parar”, descreve Juan Domingo Romero. Jala Jala, como Juan é conhecido na Villa 31, transita com facilidade em meio às ruas e vielas. Além de uma referência entre os moradores, o homem também é responsável pela organização de uma espécie de feira livre realizada nos fins de semana em uma das entradas da comunidade.

Mesmo habituado a forte realidade de uma das zonas mais miseráveis de Buenos Aires, Jala Jala se mostra impressionado diante dos reflexos causados pelo paco na comunidade. “Muitos usuários são ainda crianças, já vi de sete, oito anos fumando paco. Eles fogem de suas casas e vêm para a Villa para fumar a droga”, conta.

“Os usuários ficam como naquele programa…como é mesmo? Ah, o Walkind Dead! Os paqueros (denominação dada aos usuários da droga) são como mortos-vivos andando pelas ruas”.

PREVENÇÃO

O terceiro Barómetro del Narcotráfico y las Adicciones: Venta de Drogas y Consumos Problemático, realizado pela UCA em abril deste ano, apontou uma série de propostas para controlar o constante crescimento dos índices de consumo de drogas no país. Segundo o documento, é preciso criar políticas de Estado a longo prazo e que transcendam o debate partidário e eleitoral.

“As agências estatais, as diferentes forças políticas e os atores sociais devem construir um consenso mais amplo, evitando usar a problemática dos vícios em uma arena política-eleitoral”, descreve o documento assinado por 27 especialistas de diversas áreas sociais.

O manifesto ainda frisa a necessidade de levar assistência e debater o assunto junto às camadas mais pobres e excluídas da sociedade argentina, fortalecer o vínculo com as instituições que prestam serviços sociais nas villas e dar atenção especial aos mais jovens, especialmente os de idade entre 15 e 18 anos.

“É fundamental compreender que uma parte importante dos problemas tem como fundo a exclusão social e a precariedade de existência, das quais os vícios e o consumo de drogas são sintomas de um problema muito mais complexo”.

As diretrizes apontadas pelos especialistas não são nenhuma novidade para os moradores da Villa 31. Cansado de ouvir muitas promessas e não enxergar nenhuma mudança, César encara com desconfiança e descrença os novos discursos.

“As políticas do Estado são nulas, há muito tempo pedimos infraestrutura, que o crescimento seja acompanhado de políticas sociais”, expõe. Com o nascimento da primeira filha, o líder comunitário sonha com uma nova realidade, longe das ruas estreitas e enlamaçadas da Villa 31.

“Eu queria sair do bairro, comprar um terreno em outro lugar. Aqui a situação é muito difícil. Se os pais não forem firmes, acabam perdendo seus filhos para as drogas, a gravidez na adolescência”, lamenta.

GABRIEL BOSA é jornalista e participa do programa “Jornalismo sem Fronteiras”, que leva jornalistas, estudantes de comunicação e áreas correlatas a Buenos Aires para um mergulho de 10 dias no trabalho de correspondente internacional

Publicado em Notícias

Como a avaliação neuropsicológica contribui para a eficácia do tratamento na prática clínica de tratamento da dependência química?

 

A avaliação neuropsicológica se mostra uma ferramenta importante na identificação dos comprometimentos cognitivos decorrentes do uso ou abuso de substâncias.

*Por Adriana Moraes

Como a avaliação neuropsicológica contribui para a eficácia do tratamento na prática clínica de tratamento da dependência química? Quem irá responder essas e outras questões sobre o tema, é a psicóloga Dra. Priscila Previato de Almeida, especialista em avaliação neuropsicológica, que atua no CRATOD (Centro de Referência de Álcool, Tabaco e outras Drogas) e na Clínica Alamedas.

Neuropsicologia

A neuropsicologia é a área encarregada de estudar a relação entre o cérebro e comportamento cognitivo, sensorial, motor, emocional e social do indivíduo [1]. Ao lado de outras áreas do conhecimento neurocientífico, tais como a neuroimagem, a neurologia e a psiquiatria, a neuropsicologia tem se empenhado no estudo da cognição, das emoções, da personalidade e do comportamento sob o enfoque da relação entre esses aspectos e o funcionamento cerebral.

Dependência Química e a Avaliação Neuropsicológica

A dependência química pode ser entendida como uma alteração cerebral provocada pela ação direta da droga nas diversas regiões cerebrais. O consumo de substâncias psicoativas pode causar mudanças duradouras na estrutura e no funcionamento neuronal, que são a base das anormalidades comportamentais associadas à dependência. [2]

A avaliação neuropsicológica se mostra uma ferramenta importante na identificação dos comprometimentos cognitivos decorrentes do uso ou abuso de substâncias. A avaliação pode auxiliar no comportamento do diagnóstico e na compreensão da dificuldade de manutenção da abstinência; além disso, pode ajudar no tratamento e na orientação dos usuários de drogas. [3]

Acompanhe a entrevista:

Qual o objetivo da avaliação neuropsicológica?

A avaliação neuropsicológica tem como objetivo principal avaliar o funcionamento cognitivo do sujeito, estabelecendo relações entre o funcionamento cerebral e o comportamento.

Quais são os princípios básicos que caracterizam a avaliação neuropsicológica?

A avaliação neuropsicológica utiliza conhecimentos das várias áreas ligadas à neurociência, sendo uma prática específica do profissional psicólogo. O profissional deve estar atento à história pregressa do paciente, colher dados sobre o desenvolvimento físico e mental, além de avaliar como se deu a progressão da condição existente e elaborar prognósticos.

Explique o que são testes neuropsicológicos e qual o critério para a escolha dos testes?

Os testes são ferramentas padronizadas que permitem ao profissional avaliar de maneira quantitativa as funções cognitivas, permitindo fazer comparações e inferências sobre o que está normal ou prejudicado no sujeito. Os testes são escolhidos levando-se em consideração a idade, o grau de escolaridade e a queixa principal do paciente.

As reações provocadas pelas substâncias no cérebro ainda são motivos de investigação e controvérsias. Como é realizada a avaliação neuropsicológica em usuários de drogas?

A avaliação neuropsicológica em usuários de substâncias é um grande desafio. Cada substância age de uma forma no sistema nervoso central, tem receptores específicos para cada uma delas, além de alterar o comportamento de acordo com essa ação específica. O que se tem em comum é que todas as drogas agem direta ou indiretamente no sistema de recompensa cerebral, área envolvida com a busca de prazer, com papel central no mecanismo da dependência. Portanto, precisamos considerar variáveis como tempo e frequência de uso, tipo de substância utilizada e a presença ou não de comorbidade psiquiátricas. Outra questão importante refere-se ao tempo de abstinência e o quanto a substância demora para ser eliminada do corpo, como por exemplo, no caso da maconha, a qual fica depositada em tecido adiposo e permanece recirculando no organismo durante um tempo, mesmo após o sujeito ter interrompido o uso.

Quais são os principais prejuízos cognitivos no cérebro associados ao uso de álcool? De 01 exemplo de teste que possa identificar esses prejuízos.

Indivíduos dependentes de álcool tendem a apresentar alterações importantes, principalmente ligadas às funções de memória, atencionais e executivas, como por exemplo, na memória de trabalho, capacidade de aprendizagem, resolução de problemas e tomada de decisões. Estas funções podem ser avaliadas por testes como o Rey Auditory Verbal Learning Test, DigitSpan, no caso da memória e aprendizagem;  o Trail Making Test, que mede aspectos atencionais, e outros como Wisconsin CardSorting Test, Stroop Test, Iwoa Gambling Task para a avaliação de diversos aspectos do funcionamento executivo.

No desenho abaixo, identifique quais funções do cérebro são afetadas pelo uso de maconha e crack . Como a avaliação neuropsicológica contribui para a eficácia do tratamento na prática clínica de tratamento da dependência química?

20130416175234369752o

(imagem reprodução)

Existem receptores canabinóides em quase todo cérebro. A maconha vai agir principalmente nas áreas cerebrais responsáveis pela coordenação, percepção do tempo e espaço, julgamento e memória, além de agir indiretamente no sistema de recompensa cerebral. Já o crack, produz seus efeitos por se ligar ao transportador de dopamina, não permitindo que a dopamina liberada na fenda sináptica seja recaptada para dentro do neurônio, ocasionando o efeito euforizante da droga. Age diretamente no sistema de recompensa, além de áreas como o córtex pré-frontal, responsável pelo julgamento, tomada de decisão, bem como áreas relacionadas com a memória e a atenção.

A avaliação neuropsicológica vai permitir o delineamento de um tratamento mais individualizado de acordo com tipo e o grau dos prejuízos cognitivos observados, contribuindo assim para uma maior eficácia do tratamento.

De que forma a neuropsicologia ajuda a identificar se o uso de drogas alterou o desempenho cognitivo do indivíduo ou se esses prejuízos existentes já o acompanhavam desde a infância?

Para responder essa pergunta é preciso fazer uma entrevista de anamnese detalhada, colher dados sobre o funcionamento pré-morbido deste paciente e de acordo com o resultado da avaliação, fazer inferências. Existem funções que teoricamente não são afetadas por uma injúria no cérebro, pois seriam habilidades cristalizadas e resistentes a um possível declínio cognitivo. Um exemplo é o desempenho na tarefa de Vocabulário da Escala Wecshler de Inteligência.

Dra. Priscila, qual a importância da neuropsicologia na sua prática como psicóloga? 

A neuropsicologia contribui para uma prática mais condizente com as capacidades reais de apreensão da técnica empregada para um paciente. Por exemplo, a terapia cognitivo comportamental exige capacidades como julgamento e insight que estão prejudicadas em determinados momentos, seja pelo uso crônico de drogas ou por um episódio depressivo atual. A abordagem do psicólogo deve considerar esses aspectos dentro de uma proposta terapêutica, o que vai melhorar a adesão deste paciente ao tratamento.

thumb 39a

Dra. Priscila agradeço suas informações!

*Adriana Moraes – Psicóloga da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina) – Especialista em Dependência Química – Colaboradora do site da UNIAD (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas).

 

Referências:

[1]  http://www.fcmsantacasasp.edu.br/images/Arquivos_medicos/2009/54_3/vlm54n3_8.pdf

[2] O tratamento do usuário de crack – Marcelo Ribeiro, Ronaldo Laranjeira (Orgs) 2ª edição – Porto Alegre: Artmed, 2012.

[3] Neuropsicologia: teoria e prática/ Organizadores, Daniel Fuentes… [et al] – 2ª edição – Porto Alegre: Artmed, 2014.

Publicado em Notícias