Aumenta número de motoristas multados pela Lei Seca em Ribeirão

A Cidade – Ribeirão Preto

De janeiro a abril deste ano, 331 motoristas tiveram o direito de dirigir suspenso por 1 ano pela combinação álcool e direção

Jornal A Cidade / Lucas Catanho

Corretor de imóveis Édson Furquim parou de beber em 1991: exemplo como motorista e pai; bebida foi interrompida 13 anos após acidente. (Foto: F.L. Pinton/A Cidade)

O motorista de Ribeirão Preto está mais imprudente quando o assunto é a perigosa combinação álcool e volante. Entre janeiro e abril deste ano, 331 condutores foram notificados a entregar a CNH (Carteira Nacional de Habilitação) por dirigir sob efeito de bebida alcoólica. O volume é 160% maior do que os 127 notificados no mesmo período do ano passado pela mesma infração.

No ano passado, entre janeiro e abril, 6,21% dos motoristas notificados a entregar a carteira abusaram da bebida alcoólica na direção. Neste ano, no mesmo período, o índice subiu para 10,38%.
Conforme o A Cidade publicou em fevereiro deste ano, a bebida alcoólica figura entre as três principais causas de mortes em acidentes de trânsito em Ribeirão, ao lado do excesso de velocidade e as distrações, como o uso de celular e dirigir com sono.

O vendedor T.P.P. ainda contabiliza o prejuízo. Somando os estragos que terá de pagar do seu carro, da caminhonete na qual bateu e da fiança que teve de pagar, o custo será de R$ 26 mil. Ele não tinha seguro.

O acidente ocorreu no final de fevereiro. T.P.P. saía de um churrasco em Ribeirão e voltava para Cravinhos à noite, onde mora, quando na rodovia Anhanguera, na altura do antigo Jóquei Clube, bateu na traseira do carro da frente. Chovia no momento da ocorrência.

“Além do prejuízo, vou responder a processo criminal. Daqui a pouco a Justiça vem me procurar”. Por falta de dinheiro, T.P.P. ainda não mandou arrumar o veículo e está sem condução.

T.P.P. diz que o acidente serviu para mudar sua postura. “Se a gente beber, não pode dirigir de jeito nenhum. Todo mundo sabe disso, mas é difícil. Ainda bem que ninguém ficou ferido no acidente. Aquele dia eu havia bebido duas cervejas e tinha tomado água depois, estava bem”.

No momento do acidente, o vendedor estava acompanhado de um amigo. No carro da frente havia somente o motorista. Ninguém se feriu.

O bafômetro registrou 0,65 mg de álcool por litro de sangue. Acima de 0,33 mg/L, além de ser submetido às penas administrativas, o condutor responde por crime de trânsito (leia mais no quadro ao lado).

Lição

O corretor de imóveis Edson Furquim, 58, comemora a mudança em seu comportamento. Ele lembra que, em 1978, 20 anos antes da Lei Seca, bateu o carro de um amigo na lateral de outro veículo – parado na via – por conta do exagero na cerveja.

“Foi um alerta. Em 1991, parei de beber de vez. Estava exagerando muito, isso estava trazendo problemas econômicos e eu precisava ser exemplo para meus filhos. Hoje noto que, mesmo com a lei, as pessoas continuam exagerando”, afirma.

Bebeu? Chame um táxi

F.L. Pinton/A Cidade

José Carlos Frondola diz que Lei Seca resultou em 30% a mais de clientes no seu táxi. (Foto: F.L. Piton/A Cidade)

O taxista José Carlos Frondola, 70 anos, se aproveitou do maior rigor da Lei Seca para impulsionar seu negócio. Em junho de 2008, quando a nova legislação começou a vigorar, ele logo percebeu que poderia lucrar mais diante da nova demanda que surgia. E não é que deu certo?

De pronto, afixou nas duas laterais do seu táxi o anúncio: “Bebeu um golin? Ligue para Zé Carlin”.

“Desde então meu movimento aumentou 30%. Gente de todas as idades, da cidade e também turistas deixaram de dirigir ao saberem que iriam beber”.

Frondola considera que o aumento no fluxo de clientes tem a ver com a maior consciência dos motoristas a respeito da perigosa combinação álcool e direção.

A opinião do taxista é compartilhada com a do diretor-presidente do Detran (Departamento Estadual de Trânsito), Daniel Annenberg (leia mais ao lado).

“A Lei Seca foi muito boa porque evita acidentes, vem salvando muitas vidas e aumentou a quantidade de serviço para nós (risos)”, concluiu.

Fiscalização foi intensificada, diz Detran

O diretor-presidente do Detran (Departamento Estadual de Trânsito), Daniel Annenberg, atribui o aumento expressivo nas notificações de suspensão de CNH por conta do abuso do álcool em Ribeirão à maior fiscalização.

“Somente neste ano, o Detran realizou quatro blitze em Ribeirão, praticamente uma por mês. Estamos ampliando a fiscalização, então q uem fiscaliza mais flagra mais. Isso sem contar as ações de rotina feitas pela PM”, explicou.

Annenberg não acredita que o crescimento nas suspensões de CNH esteja relacionado a imprudência por parte dos motoristas. “Temos sentido que os condutores têm se conscientizado mais”, reforça. Entre 2011 e 2013, a redução no número de mortes no trânsito no Estado foi de 10%. Segundo o DataSUS, o número de vítimas caiu de 7.559 para 6.809.

O diretor acrescenta que a queda vai ao encontro da Década de Ação pela Segurança no Trânsito, proposta pela ONU (Organização das Nações Unidas), que prevê a redução em 50% do número de mortos e feridos no trânsito, entre 2011 e 2020, em todo o mundo.

Novas regras endurecem Lei Seca

As novas regras que endureceram a Lei Seca e começaram a vigorar em 21 de dezembro de 2012 buscaram acabar com a brecha usada por muitos motoristas para fugir de punição. Com a mudança, recusar o bafômetro deixou de impedir o processo criminal.

A modificação no Código Brasileiro de Trânsito possibilitou que vídeos, relatos, testemunhas e outras provas sejam considerados válidos contra os motoristas embriagados. Além disso, aumentou a punição administrativa, de R$ 957,70 para R$ 1.915,40. Esse valor é dobrado caso o motorista seja reincidente em um ano.

A Lei Seca havia sido esvaziada depois que o STJ (Superior Tribunal de Justiça) decidiu, em março de 2012, que o bafômetro e o exame de sangue eram obrigatórios para comprovar o crime.
Com isso, motoristas começaram a recusar os exames valendo-se de um direito constitucional: ninguém é obrigado a produzir provas contra si mesmo. O condutor era multado, perdia a carteira e tinha o veículo apreendido, mas não respondia a processo.

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Coordenação de Políticas sobre Drogas discute destino do saldo de leilões de bens apreendidos do tráfico

Secretaria de Desenvolvimento Social

O tema central foi definir estratégias para aumentar o recurso destinado ao enfrentamento e combate ao comércio ilegal de drogas

Na manhã do dia 21/5, a Coordenação de Políticas sobre Drogas (COED) se reuniu com membros da Comissão Estadual para Assuntos Referentes a Bens Apreendidos do Tráfico de Drogas (Combat) para a revisão do convênio com a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), do Ministério da Justiça. O encontro foi na Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social, coordenadora do Programa Recomeço.

Além da presidente da Combat e coordenadora de Políticas sobre Drogas, Gleuda Apolinário, participaram da reunião técnicos da Secretaria de Desenvolvimento Social, do Conselho Estadual sobre Drogas (Coned), da Secretaria de Segurança Pública (Denarc e Dipol), da Secretaria de Gestão Pública (Detran), do Ministério Público do Estado de São Paulo, do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (Seção Criminal).

Na revisão do convênio, o objetivo é rever a distribuição e o percentual dos valores auferidos dos leilões de bens apreendidos do tráfico de drogas para redirecionar os recursos ao enfrentamento e combate ao tráfico. Para isso, serão elaborados projetos específicos que serão entregues à Senad, garantindo que parte da arrecadação dos leilões permaneça no Estado de São Paulo.

Entre as deliberações da Comissão, foi definida a inclusão do secretário de Segurança Pública de São Paulo na assinatura do Acordo Jurídico com o Governo Federal. Discutiram também a aprovação do projeto “Sistema de Monitoramento – Programa Recomeço” e a proposta de criação de um fundo estadual para gerenciar o recurso proveniente dos leilões no Estado de São Paulo.

O grupo viabiliza ainda a publicação de uma portaria interna determinando que todos os veículos apreendidos sejam periciados e tenham sua procedência verificada por parte da Secretaria de Segurança Pública, aumentando com isso o controle dos bens oriundos do tráfico de drogas.

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Comissão rejeita placas em rodovias sobre riscos do uso de drogas

Agência Câmara de Notícias

Reprodução/TV Câmara
Adail Carneiro: para atingir resultado esperado, campanhas deveriam envolver escolas e famílias

A Comissão de Viação e Transportes da Câmara dos Deputados rejeitou, na quarta-feira (20), proposta que torna obrigatória a instalação de placas em rodovias federais com alertas sobre as consequências do uso de drogas ilícitas.

Relator na comissão, o deputado Adail Carneiro (PHS-CE) apresentou parecer pela rejeição do Projeto de Lei 4531/12, do deputado Wilson Filho (PTB-PB). Na opinião de Carneiro, a medida não alcançaria o efeito desejado. “Para se atingir o resultado esperado, campanhas sobre a matéria deveriam fazer parte de outro tipo de ações, as quais atinjam escolas e famílias, principalmente”, avaliou.

Ele acrescentou que compete ao Conselho Nacional de Trânsito (CONTRAN) aprovar, complementar ou alterar os dispositivos de sinalização de trânsito. “Inclusive a respeito de placas com campanhas educativas, especialmente aquelas voltadas para educação para o trânsito”, destacou.

Por fim, Carneiro informou que o País possui um milhão de quilômetros de estradas, dos quais apenas 250 mil são pavimentados e, deste número, 66.712 quilômetros são de rodovias federais. “O percentual de rodovias atingido pela medida [só rodovias federais] em tela é muito pequeno dentro do montante de quilômetros de estradas existente no Brasil”, finalizou.

Tramitação
O projeto, que foi aprovado na Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado, será analisado ainda pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ). Se aprovado, seguirá para o Plenário.

Íntegra da proposta:

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Exame bem aceito

EXAME – Lauro Jardim – Radar on-line – com Thiago Prado e Guilherme Amado

Adiada para 2016 pelo Contran, a exigência de exames toxicológicos para habilitar ou renovar carteiras de motoristas de caminhões, ônibus e vans tem aprovação de 95% dos brasileiros, segundo o Ibope apurou em abril.

Por Lauro Jardim

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Perfil do consumo de álcool de usuários de uma unidade de Atenção Primária à Saúde

Profile of users of alcohol consumption of Primary Health Unit

Rafael Tavares Jomar, Vitor Augusto de Oliveira Fonseca, Ângela Maria Mendes Abreu, Rosane Harter Griep

acesse: 0047-2085-jbpsiq-64-1-0055.pdf

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Em ascensão na Flórida, nova droga sintética ‘flakka’ faz usuários enlouquecerem em poucos dias

O Globo

Casos de pessoas que correm peladas na rua após consumir a substância têm sido registrados nos EUA

POR AP
Cristais de flakka são apreendidos pelo departamento para repressão de narcóticos dos Estados Unidos – Divulgação/ U.S. Drug Enforcement Administration

FORT LAUDERDALE, EUA – Uma droga sintética cada vez mais popular na Flórida está por trás de uma série de crimes bizarros no estado americano, segundo a polícia local. Um homem correu pelado por um bairro, tentou fazer sexo com uma árvore e disse a um policial que ele era o deus Thor, da mitologia nórdica. Já outro correu pelado pelas ruas movimentadas de uma cidade em plena luz do dia, certo de que uma matilha de pastores alemães o estava perseguindo. Outros dois tentaram invadir o Departamento de Polícia de Fort Lauderdale. Eles achavam que havia pessoas os perseguindo, e um deles acabou empalado em uma cerca.

O elemento comum em todos esses incidentes bizarros que ocorreram nos últimos meses é a flakka, uma droga sintética que está ficando popular na Flórida. Também conhecida como “cascalho” e vendida por cerca de US$ 5 (R$ 15) o frasco, a substância está se tornando um problema crescente para a polícia, depois que chegou ao mercado em 2013.

Ela é a mais recente em uma série de drogas sintéticas — que inclui ecstasy e “sais de banho” — mas, de acordo com as autoridades, a flakka é ainda mais fácil de se obter, em pequenas quantidades, através do correio. O ingrediente ativo da flakka é um composto químico chamado alfa-PVP, que está na lista do U.S. Drug Enforcement Administration (DEA, o departamento para repressão de narcóticos dos Estados Unidos) de substâncias controladas com maior probabilidade de provocar o vício. O produto é geralmente fabricado em países como a China e o Paquistão.

A flakka — termo derivado da palavra em espanhol usada para designar uma mulher magra — é normalmente vendida em forma de cristais e fumada com auxílio de cigarros eletrônicos, populares entre os jovens e que não emitem cheiro. A droga também pode ser cheirada, injetada ou ingerida.

— Um viciado uma vez descreveu a droga como “insanidade por US$ 5” — disse Don Maines, conselheiro no tratamento de dependência química que trabalha no Departamento de Polícia do Condado de Broward, em Fort Lauderdale. — Eles querem experimentar porque é muito barato. A droga amplia a sensação de consciência. Eles se sentem mais fortes e ficam mais sensíveis ao toque. Mas depois vem a paranoia.

Cápsulas de flakka confiscadas pela polícia da Flórida em fevereiro deste ano – Divulgação/ Broward Sheriff’s Office

A julgar pelos flagrantes da polícia da Flórida, o uso da flakka está se escalando rapidamente. O número de amostras que chegam para teste nos laboratórios criminais passou de 38 em 2013 para 228 em 2014. No laboratório do Departamento de Polícia de Broward, os registros de flakka cresceram de menos de 200 em 2014 para 275 apenas nos três primeiros meses deste ano, segundo a porta-voz Keyla Concepción.

— É definitivamente algo em que estamos de olho. É uma droga em ascensão — comentou Chad Brown, agente especial do Departamento de Polícia da Flórida.

Segundo Brown, sua divisão está treinando policiais para que eles possam reconhecer a flakka e seus efeitos em usuários. Mas há um desafio: os fabricantes da droga fazem pequenas alterações na composição química da substância, para dificultar seu reconhecimento nos laboratórios. Além disso, ela é frequentemente misturada a outros entorpecentes, como crack, cocaína e heroína, com efeitos ainda pouco conhecidos. Com o uso contínuo por pouco mais de três dias, já pode ser possível notar mudanças de comportamento graves nos usuários.

— A droga começa a reprogramar a química do cérebro. Os usuário não têm controle sobre seus pensamentos. Eles não podem controlar suas ações — alertou Maines. — Parece ser universal a sensação de que alguém os está perseguindo. É uma droga extremamente perigosa.

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Cinco menores caem nas garras da Justiça a cada dia

Diário da Região / São José do Rio Preto – Elton Rodrigues

Breno, cujo pai é usuário de crack e vive nas ruas, ao lado da mãe: garoto entrou para o mundo do crime quando tinha apenas 12 anos

A idade é pouca, mas a ficha policial geralmente é extensa. A maioria, jovens sem planos para o futuro, que abandonaram os estudos para viver a serviço de traficantes. Em quase todos os casos, filhos de famílias desestruturadas. Assim é o perfil dos adolescentes infratores que respondem a processos na Justiça de Rio Preto. A cada dia, a Vara da Infância e Juventude recebe em média cinco novas ações de menores envolvidos com a criminalidade, ou 150 por mês.

Os números por si só já são altos, segundo o próprio juiz da Infância e Juventude, Evandro Pelarin. Mas, ainda assim não refletem a realidade. A quantidade de jovens apreendidos todos os dias é ainda maior. Na maioria deles, a promotoria pondera e aplicar medidas como advertência ou mesmo o perdão, e o processo nem é aberto para dar nova chance aos jovens que cometem infrações menores, ao mesmo tempo em que alivia as já abarrotadas prateleiras do Fórum com novos processos e também deixa a Fundação Casa para infratores que, de fato, precisam estar lá.

Vão parar a Justiça os casos mais graves, que envolvem homicídio, roubo e tráfico, este último o crime mais comum, e que corresponde a 70% das ações na Vara da Infância e Juventude de Rio Preto. “Há uma glamorização do crime, impulsionado pelo dinheiro fácil. Os menores entram para o tráfico para ganhar dinheiro ou para sustentar o próprio vício”, afirma Pelarin.

Vida de ostentação

“Queria ganhar dinheiro. Tirava de R$ 300 a R$ 500 por dia de trabalho. Onde vou ganhar isso?” A frase dita por um menor de 15 anos é comumente ouvida pelo juiz em audiências. Os menores costumam alegar que entram para o tráfico para ter uma vida de ostentação. Comprar roupa e tênis caros, ir em festas da alta sociedade e mostrar um elevado padrão de vida, além de ser respeitado nos bairros dominados pelo tráfico, com o João Paulo 2º, na zona norte.

“Queria dinheiro e não tinha trabalho, mas vi que isso não dá futuro”, disse um jovem de 17 anos. Apreendido, ele ficou 30 dias na Fundação Casa e fugiu quando deixou a instituição para ingressar no sistema de semiliberdade. Foi pego novamente pela polícia traficando poucos dias depois. Na grande maioria dos casos de tráfico, os menores têm mais de uma passagem pela polícia.

Nas audiências, dizem que estão arrependidos e que vão trabalhar, porém voltam para o mundo do crime. O principal motivo da reincidência é a sensação de impunidade. Um menor só é internado por tráfico depois de quatro ou cinco passagens pela polícia e isso quando há vaga disponível em alguma Fundação Casa. A legislação permite que o menor fique no máximo cinco dias em celas comuns aguardando a internação.

Como as unidades costumam estar sempre com lotação máxima, a maioria deles acabam liberados depois dos cinco dias para responder o processo em liberdade. “Não são raros os casos em que a polícia apreende o adolescente por tráfico, a Justiça decreta a internação provisória, ele fica detido, mas a vaga não vem, e ele é liberado. Dali a pouco, a polícia o prende novamente. Só hoje atendi dois casos assim”, afirmou Pelarin durante entrevista ao Diário no meio da semana.

Juiz discorda do TJ

O próprio Tribunal de Justiça é contra a internação de jovens por tráfico de drogas e diz que só deve ser decretada em casos de homicídio ou estupro. Opinião diferente à de Pelarin “É comum ouvirmos o menor falar: ‘Dá nada não, senhor’. Eles ficam cinco dias detidos e são liberados. Para pegar uma internação precisa de três a quatro passagens e, mesmo assim, fica seis meses e sai”, diz Pelarin.

“Não dá nada mesmo e é isso que os adultos utilizam para convencer os menores a traficar”, ironiza o juiz, que entende o tráfico como crime muito grave. “E as famílias que estão sendo destroçadas com essa droga que o adolescente está vendendo?”, questiona. Esse é um dos motivos para Pelarin defender a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos.

Problema só aumenta

De janeiro de 2014 até abril deste ano, a Vara da Infância e Juventude de Rio Preto abriu 2.188 novos processos envolvendo menores infratores, 70% deles por tráfico. Os demais são por lesão corporal, ameaça, roubo e furto. O problema é que a velocidade com que esses processos chegam não é a mesma com que são finalizados. No mesmo período, o número de processos em andamento aumentou 40%.

Em janeiro do ano passado eram 1.416, já no mês passado, saltou para 1.994, 578 a mais. A demora está diretamente relacionada a dois fatores: número reduzidos de funcionários e aumento da criminalidade. De acordo com os dados da Secretaria de Segurança Pública, de janeiro a março deste ano, a cada cinco pessoas detidas em Rio Preto, um é menor de idade. Foram 854 prisões, das 174 foram apreensões de adolescentes. Só em março, o aumento foi de 40% se comparado ao mesmo mês do ano passado: subiu de 44 para 61.

Segundo o juiz Evandro Pelarin, em metade dos casos é decretada a internação. No restante, os jovens são encaminhados para medidas socioeducativas, como trabalho comunitário, para driblar a falta de vagas na Fundação Casa. A Justiça também pode impedi-los de sair à noite desacompanhados dos pais ou de frequentar bares e boates.

Perdão

A quantidade de ações na Vara da Infância e Juventude de Rio Preto só não é maior porque na maioria dos casos a promotoria tentar resolver a situação antes da abertura de processo. Quando os menores têm uma estrutura familiar, por exemplo, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) permite o perdão. “Podemos ponderar e aplicar medidas que não a internação, que vão desde advertência até liberdade assistida.

Quando o jovem tem família, estuda e é primário é muito salutar o perdão, porque sabemos que não deverão cometer novos crimes”, afirma o promotor da Infância e Juventude de Rio Preto, André Luis de Souza. “ Temos de recorrer a internação em casos mais graves, quando o adolescente não tem relação familiar boa ou convive em más companhias”, acrescenta André Luis.

Fundação não dá conta

As 366 vagas para internação plena e as 216 para internação provisória, divididas entre as unidades da Fundação Casa de Rio Preto, Mirassol e Tanabi, não têm sido suficientes para atender a demanda de infratores da região. E é por isso que, com frequência, os menores são soltos e respondem ao processo em liberdade. Assim foi com João (nome fictício), de 17 anos. Em janeiro, ele foi flagrado traficando drogas no bairro João Paulo 2º.

Ficou cinco dias detido e liberado por falta de vagas. Quase um mês depois, foi novamente flagrado no mesmo lugar, e ficou mais cinco dias na Central de Flagrantes e, mais uma vez foi solto pelo mesmo motivo: falta de vaga Fundação Casa. Somente na terceira vez em que ele foi apreendido, em abril, havia vaga e o menor ficou preso por 30 dias. Mas a medida pouco adiantou. Em liberdade desde o início do mês, ele voltou a vender drogas.

“Fui pessoalmente pedir para o juiz Evandro Pelarin internar novamente meu filho”, afirmou a mãe do adolescente, que preferiu não revelar o nome nem a idade. “Dos que são apreendidos por tráfico em flagrante, em 90% dos casos é mantido o flagrante e decretada as internação provisória de 45 dias, mas os menores só podem ficar cinco dias na cadeia. É aí que entra um nó. Porque desses 90%, 40% são liberados por falta de vaga. Aí, ele continua respondendo o processo, só que em liberdade”, afirma o juiz. É justamente por isso que, de acordo com ele, casos com o de João são comuns.

Marlene dos Anjos
Marlene, de 53 anos, cujas duas netas estão internadas

Maioria vem de famílias desestruturadas

Miguel (nome fictício), de 15 anos foi abandonado pelo pai antes mesmo de nascer. A mãe, de 32 anos, estava presa até o mês passado por tráfico de drogas e roubo. Ela nem sequer sabe da vida do filho. Breno (nome também fictício), 15 anos, também conhece pouco o pai, que fuma crack e perambula pelas ruas de Rio Preto. A mãe ganha a vida como vigia em um condomínio de chácaras no distrito de Talhado. Exemplos como esses retratam a realidade da maioria dos adolescentes aliciados pelos traficantes. Jovens com famílias desestruturadas, de baixa renda, sem muita assistência e exemplos dentro de casa são alvos fáceis para bandidos.

“Não podemos dizer que os adolescentes entram no tráfico para ganhar dinheiro por falta de oportunidade. É uma fala simplista, um reducionismo muito grande. É até injustiça com os adolescente pobres que são honestos, que formam uma grande massa que não vai para o crime e muito menos para o tráfico de drogas”, analisa o juiz Evandro Pelarin. Mas a ilusão de dinheiro fácil (e da impunidade) seduziu Breno. Com 12 anos ele entrou para o mundo do crime. “Dois amigos foram fazer um roubo em uma casa e fui junto. Queria ver o que tinha e pegar pra mim, mas a polícia chegou antes e me levou”, lembra o menor, que foi ouvido e liberado depois.

Na época, Breno trabalhava em uma tapeçaria. Viu que não tinha jeito para assaltante e migrou para o tráfico. No início, com objetivo de comprar a maconha que já fumava. Em pouco tempo, deixou a escola, no primeiro ano do ensino médio, para se dedicar ao “trabalho”. “Ganhava pouco na tapeçaria e o dono estava quase falindo. No tráfico, ganhava em média R$ 500 em um dia de trabalho.” Para isso, ele tinha de vender cerca de 30 pedras de crack. “Vendia muito rápido, em cinco horas de trabalho.”

Mas gastava com a mesma velocidade o que ganhava. “Ia nessas festas em chácaras. Gastava R$ 300, R$ 400, em uma só noite. Só que essa vida é difícil. Já apanhei muito”, afirma. “Já dei conselhos, já bati. Nada adiantou. Não sei mais o que fazer. Procurei conselho tutelar, levei ele para tratamento, mas ele matava aula para traficar. Tudo isso começou dentro da escola”, diz a mãe do rapaz, E.R., de 35 anos. No caso de Miguel, os conselhos vieram dos avós, já que a mãe não acompanha a rotina do filho. “Somos honestos e trabalhadores. Disse tanto para ele e a mãe seguirem nosso caminho, mas foram nas ideias dos amigos”, diz a avó, de 63 anos.

O menor deixou os estudos no quinto ano do ensino fundamental. Hoje, acumula duas passagens por tráfico de drogas e chegou a ficar um mês na Fundação Casa. Mesmo assim, voltou a traficar. “Os pais perdem a autoridade em casa. O menino ganha em dois ou três dias o que o pai ou a mãe ganha em um mês inteiro de trabalho”, afirma Stela Maria Atanázio, do Conselho Tutelar Norte, que atende a região mais populosa e vulnerável da cidade, ao avaliar porque os menores insistem em permanecer no tráfico. Na região em que ela atua, o conselho recebe uma média diária de três casos de menores envolvidos com o tráfico de drogas.

Avó perde netas para tráfico

O chão é de terra. Portão de madeira. Casa pequena, de tijolos à vista e telha de amianto. Dentro dela mora uma vítima do tráfico de drogas no bairro João Paulo 2º, uma senhora de 53 anos que vive em guerra com a criminalidade para não perder de vez a “guarda” de duas netas para os traficantes. “Eu disse a elas que a liberdade é a melhor coisa que se pode ter. Queria minhas netas de volta”, diz a empregada doméstica Marlene dos Anjos, com lágrimas nos olhos, enquanto olha fotos das duas meninas. As duas, ambas de 15 anos, estão internadas na Fundação Casa.

“Aqui em casa tudo é simples, mas nunca deixei faltar um prato de comida na mesa”, diz Marlene Julia (nome fictício), apesar da pouca idade, tem extensa ficha na polícia. São nove passagens, todas por tráfico. A menina abandonou os estudos no sexto ano do ensino fundamental depois que descobriu que poderia ganhar “muito” dinheiro em um curto espaço de tempo, segundo a avó. “Ela comprava calça de R$ 500, calçados de R$ 300. em oferecer emprego aqui”, afirmou a avó. O dinheiro rápido e fácil também atraiu a prima Amanda (nome fictício). “Ela queria comprar um celular e alisar o cabelo, por isso acabou caindo nessa”, disse a avó.

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