A batalha do crack

Paula Cesarino Costa – Colunistas – Folha de S.Paulo

RIO DE JANEIRO – Ao som de uma batida forte, o jovem se arrasta no palco escuro. Contorce-se, mãos entram e saem da camiseta larga, em coreografia lenta. Na penumbra, espectros o cercam. Entra o funk estridente: “Uma noite chuvosa/ Acordei embaixo do viaduto/ Gosto de enxofre na boca/ Cheiro de esgoto na roupa/ Parecendo um zumbi/ Eu cheguei a confundir/ Sangue com ketchup/ Antares com Hollywood.”

O público, na maioria negro e jovem, ovaciona, grita, se emociona.

A descrição aflitiva da rotina do viciado no funk “Batalha do Crack”, de Vadinho Freire e Julio Ludemir, transformou o Teatro Municipal do Rio durante o musical “Na Batalha”. O edifício centenário abriga concertos e óperas com libretos de traição, dor e poder. Graças a um festival de dança de rua, agora conheceu a devastação provocada pelo crack.

A droga atinge 2 milhões de brasileiros, apontam pesquisas. Com parco sucesso, governos criam e recriam programas de recuperação. Mas as cracolândias, ao contrário do que parecem seus habitantes, estão vivas. Multiplicam-se e movem-se.

O passinho é dança de rua, criada a partir do funk, que ganhou vielas e saiu das favelas. Combina movimentos da “break dance”, requebros africanos, passos de frevo. Acostumados aos bailes sob viadutos e nas quebradas periféricas, seus praticantes por uma hora esqueceram-se, naquele fim de semana, do gueto cultural em que são mantidos.

Menosprezada, e às vezes criminalizada como o funk, essa dança traz uma das denúncias mais virulentas e claras da droga que dizima o país. A “Batalha” se encerra com um verso sucinto: “Nem a guerra do Iraque/É mais forte que o crack”.

Ao final, uma espectadora fazia aos filhos análise estética desfavorável da apresentação. Foi interrompida: “Mãe, assistimos a um evento histórico, não a um espetáculo teatral!”. Ele havia compreendido tudo.

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