NO CENTRO DA CIDADE

No centro da cidade

Jornal Folha de S. PauloDrauzio Varella

Ela só desconfiou quando a gestação ia pelo quinto mês.

Não fez pré-natal:

—Que adiantava. Não conseguia sair da prostituição nem do maldito crack apossado da minha mente.

O menino nasceu prematuro, agitado, com insônia e crises de choro. As enfermeiras logo reconheceram a síndrome de abstinência.

A assistente social explicou que o hospital não tinha permissão para entregar bebês a mães que moravam na rua, a menos que um familiar se dispusesse a assumir a guarda. Ela deu o endereço da mãe e recebeu um cartão de retorno para a semana seguinte.

—Saí na rua sem dinheiro. Não conhecia mais ninguém fora da cracolândia. Para comer uma quentinha naquela noite, precisei fazer sexo oral com dois homens.

Na semana seguinte, recebeu a notícia de que a mãe tinha mudado sem deixar endereço. O bebê iria para um abrigo sob a tutela do Judiciário.

—Estava sozinha, no mundo. Tinha um filho que nunca seria meu.

Uma noite, um grupo saiu para assaltar nas imediações da estação da Luz. Um deles carregava uma faca de cozinha. Ela foi junto:

—Estava cansada de trepar com craqueiro para sobreviver. Entregar o corpo por R$ 10 ou uma pedra de crack, é vida?

Depois de roubarem duas mulheres, coube a ela um celular:

—Nunca tinha visto um daqueles com tela grande; chique demais. Fui embora feliz, na fissura para vender na biqueira. Ia dar um montão de pedra.

Logo à frente, os amigos abordaram um rapaz que reagiu e levou uma facada no braço. Ela foi presa com o celular a cem metros da biqueira. Pegou oito anos e dez meses por tentativa de latrocínio.

Pele e osso, chegou na penitenciária com atraso menstrual. O teste deu positivo. Encaminhei-a para o pré-natal e perdemos o contato.

Retornou bem nutrida um ano mais tarde. Queria remédio para secar o leite, acabara de entregar o bebê à assistente social. Perguntei se tinha esperança de encontrá-lo, quando saísse. Com o olhar perdido, respondeu como se falasse consigo mesma:

—Encontrar de que jeito?

Drauzio Varella – Médico cancerologista, é um dos pioneiros no tratamento da Aids no Brasil e do trabalho em prisões. Escreve na Folha aos sábados, a cada duas semanas.

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