Como a Erva Sintética K2 Está Devastando os Sem-teto do Brooklyn

http://www.vice.com/pt_br/ – Por Allie Conti – Staff Writer

Fique na entrada de emergência do Kings County Hospital Center, no Brooklyn, em qualquer dia da semana e você com certeza vai vê-los. Às vezes sozinhos, mas geralmente em duplas, eles passam pela porta automática e param no hall de entrada, as bocas abertas e os olhos congelados no nada, como personagens aterrorizados de um quadro do Goya.

Numa quarta-feira recente, um jovem paramédico hispânico apareceu com uma mulher de meia-idade de camiseta tie dye que não respondia. Ele não tinha certeza, mas podia apostar que ela tinha fumando K2 – o que as pessoas no Brooklyn chamam de maconha sintética, apesar de isso ser conhecido como spice ou spike em outros lugares.

“Geralmente só podemos adivinhar, porém, nove entre dez vezes, quando a pessoa fica sóbria, ela diz que estava fumando K2”, o médico me falou. “E, às vezes a pessoa tem vergonha de admitir, mas sabemos que foi isso.”

Os fumantes de droga podem exibir sintomas leves, como cólica e vômito, porém isso também pode levar a pessoas da catatonia à epilepsia – às vezes, na mesma viagem. O médico me contou que, no primeiro caso que viu, um cara foi “de zero a sessenta”, saindo da inconsciência diretamente para um estado de agitação, que consistia em bater a cabeça no chão como um maníaco. É exatamente essa imprevisibilidade da resposta do usuário que torna o K2, que pode ser comprado por US$ 1, uma droga tão assustadora.

Mesmo assim, ainda que algumas interações desse entorpecente tenham sido definidas como Classe 1 – assim como maconha, LSD e heroína – pelo DEA em 2011, e apesar de dezenas de drogas sintéticas terem sido proibidas em Nova York um ano atrás, todo dia é a mesma história no Kings County. Ambulâncias entram e saem, às vezes carregando o mesmo paciente mais de uma vez durante um único turno. Antes de trazer a mulher de camiseta tie dye, o médico com quem falei tinha trazido o parceiro dela. Era a terceira vez que ele estava lá naquele dia – e ainda não era nem meio-dia.

“Um dia de trabalho normal”, o médico me disse com um suspiro.

Relatórios obtidos pela VICE mostram que aquela manhã de julho não tinha nada de incomum. A New York Times Magazine reportou recentemente que, em um único dia na cidade de Syracuse, norte do Estado, 19 overdoses foram registradas. Ou seja, há “mais em um dia em Syracuse do que as overdoses registradas na maioria dos estados em todo o mês de abril”. No entanto, num domingo escolhido aleatoriamente (27 de junho), foram mais de doze chamados relacionados a K2 de um único abrigo de sem-teto no Brooklyn. Os primeiros no local disseram que o número podia chegar a 40 pacientes por dia apenas nos abrigos próximos e que o acúmulo de chamadas pode ser a diferença entre a vida e a morte.

O Kings County Hospital Center, no Brooklyn, atende regulamente vários casos de K2. Todas as fotos por Edwin Torres.

“É loucura”, comentou um socorrista que conheci em frente ao Kings County. “Passei todo meu turno num abrigo. Mas faz sentido, porque por cinco ou seis dólares você consegue bolar quatro ou cinco baseados dessa merda. E, quanto mais forte eles fazem a droga, mais a população marginalizada é atraída para isso.”

O surto recente de abuso da droga fez o governador Andrew Cuomo emitir um alerta de saúde pública em abril; no entanto, isso também colocou socorristas, bombeiros, funcionários dos hospitais e paramédicos na posição estranha de precisar improvisar um trabalho que deveria ser da polícia. Os trabalhadores alegam que os hospitais municipais não têm uma política oficial de confisco de maconha sintética, significando que os pacientes recebem sua droga de volta quando têm alta – o que explica por que tantos deles acabam voltando várias vezes num dia.

A teoria por trás da política das “janelas quebradas” é que combater pequenos crimes evita crimes maiores. E considerando os antecedentes da polícia de Nova York reprimindo pichações, gente pulando catraca e os que urinavam e bebiam em público em nome da segurança pública, não dá para entender por que eles não estão atacando o K2. Todo dia, mendigos ingerem uma droga perigosa em público diante de pais preocupados de East Flatbush, que tentam passar com os filhos por grupos de pessoas que podem se tornar violentas a qualquer minuto.

“Se eu pego um bêbado com uma garrafa de vodca vagabunda, posso jogar isso fora”, me explicou um socorrista do Brooklyn. “Porém, quando um funcionário de hospital acha um pacote de K2 no bolso de alguém, ele devolve isso ao paciente junto com sua carteira.

“Isso desliga o sistema nervoso central do mesmo jeito que PCP ou ketamina fazem”, ele continuou. “Você está fora da sua cabeça. Você não tem de sentir emoções ou dor. A maioria dos abrigos não tem programas para esses caras, eles não têm atividades; então, é isso que eles fazem o dia inteiro.

“Eles são como zumbis”, acrescentou o paramédico. “Quando eles estão na rua depois de fumar isso, é como The Walking Dead.”

synthetic-weed-is-a-scourge-on-brooklyns-homeless-population-727-body-image-1437937162-size 1000Usuários de K2 em frente a uma farmácia na Clarkson Avenue, Brooklyn.

“A rua” é um beco sujo, coberto de tampinhas de Bud Ice, garrafas de refrigerante e pombos ciscando em cocô de cachorro. É ali que os homens que vivem na Clarkson Avenue se reúnem. Numa manhã recente de domingo, dois deles estavam sentados ali, tomando caixas de suco dadas pelo abrigo e esperando o dia passar.

Um deles se apresentou como Czar. Sentado em uma caixa de papelão, ele me explicou como ganhava a vida: todo dia, ele andava até um dos dois botecos do final da rua e comprava quantos pacotes de US$ 5 de K2 conseguisse. Depois, se sentava na frente do número 681 da Clarkson e bolava a droga, vendendo cada cigarro por um dólar.

O outro homem, chamado Bless, tinha uma massa de cabelo em forma de abacaxi, uma barbicha laranja e várias tatuagens no rosto, incluindo o nome do irmão falecido e uma flor tropical. O homem de 22 anos estava na Clarkson há apenas uma semana e meia; apoiado na cerca do abrigo, ele me contou que a extensão do uso de K2 aqui era “ridícula”, totalmente diferente de tudo que ele já tinha visto em anos morando nas ruas.

Um homem que se apresentou como “G” mostra um pacote de maconha sintética da marca Geeked.

“Você só precisa de três tragadas”, ele afirmou. “Não uso essa merda. Todos os fumantes de K2 dormem no chão aqui e masturbam uns aos outros. Ninguém se preocupa em melhorar.”

Maconha sintética foi criada por um pesquisador da Clemson University com financiamento do governo. Começando em 1984, John W. Huffman, durante uma década, gastou US$ 2,5 milhões criando mais de 500 canabinoides ricos em THC, o componente ativo da maconha. Em 1994, um de seus estudantes inventou o JWH-018 – que leva as iniciais de Huffman –, e isso começou a aparecer nas lojas da Europa logo depois.

Foi como a criação de Frankenstein – e, como o monstro do cientista, isso rapidamente saiu do controle.

“Imaginei que alguém pelo caminho, algum indivíduo empreendedor, poderia tentar fumar isso”, Huffman frisou à ABC News em 2011. “Mas é como fazer roleta-russa. É exatamente como colocar uma bala num revólver, girar a câmara, colocar isso contra a cabeça e apertar o gatilho.”

Em junho de 2010, um garoto de 18 anos de Iowa chamado David Rozga puxou o gatilho – literalmente. Ele se matou com um tiro de espingarda depois de fumar K2 e reclamar que “estava no inferno”, segundo o pai. Depois de protestos do público, o DEA usou seus poderes emergenciais para proibir cinco químicos tipicamente encontrados em maconha legal, incluindo o JWH-018. Eles entraram para a lista oficial de substâncias proibidas permanentemente em 1º de março de 2011.

“Agora, há todo tipo de nome de componentes químicos. Seu professor de química ficaria orgulhoso se você conseguisse pronunciar isso certo”, me disse o agente especial do DEA Eduardo Chavez. “São dezenas de químicos que caem sob o que pode ser considerado maconha sintética ou canabinoides.”

Chavez reiterou isso porque a fórmula da maconha falsa está sempre mudando: não há campo de teste para isso ainda. Assim, enquanto os policiais podem apreender o que suspeitam ser drogas ilegais, eles têm de fazer testes demorados de laboratório para determinar que químicos isso contém.

“Não é como os testes para cocaína, heroína ou metanfetamina que você tenha à mão, como o que você vê em Cops, em que eles juntam uma substância e isso fica roxo”, destacou Chavez. “Podemos apreender isso, mas temos de suspender a acusação até podermos testar e conferir o caso com a promotoria.”

No entanto, foi só neste ano que o K2 claramente se tornou a droga preferida entre os membros mais marginalizados da sociedade. No dia 5 de junho, pelo menos sete sem-teto tiveram overdose da droga num dos maiores abrigos de Washington. As autoridades suspeitam que um lote perigoso veio de Nova York, segundo o Washington Post.

Entre 29 de maio e 18 de julho, o condado de Travis (onde fica Austin, Texas) registrou 562 atendimentos por uso de K2. No dia 23 de julho, uma estação de TV de Austin informou que estudantes da Universidade do Texas estavam reclamando que uma área perto do campus tinha se tornado perigosa demais graças aos sem-teto usando K2 a céu aberto.

Apesar de o Departamento de Serviços para os Sem-teto de Nova York ter me dito por e-mail que “está constantemente monitorando abrigos sobre o uso de K2” e que usuários são proibidos de ficar neles, qualquer um podia ver que os arredores sujos do abrigo da Clarkson haviam se tornado uma feira de variedades diferentes desse entorpecente e que pessoas claramente sob efeito da droga estavam tropeçando pelo perímetro.

Quando um homem negro de meia-idade se aproximou de Czar para comprar um cigarro, Bless zombou do cliente. “Como fumar K2 faz você se sentir?”, ele perguntou.

“É meu segundo recurso para apagar”, o homem respondeu, enquanto Czar bolava um cigarro e recebia seu dólar. Nisso, quatro outros homens apareceram e um deles começou a tocar Lil Wayne num minúsculo aparelho de som.

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K2 também está presente no Harlem. Aqui, um usuário mostra a variedade Green Giant.

O vendedor de K2 de 29 anos – que usava uma camiseta laranja ao avesso, tinha um tigre dente de sabre tatuado no pescoço e parecia dez anos mais velho – explicou que são quatro tipos populares de K2 no abrigo. “Extreme, Smacked e Green Giant são os seguros”, ele resumiu. “O ruim é o Flamingo. Dizem que os médicos não sabem o que vai nesse.”

Entreguei um dólar amassado em troca de um baseado de Extreme. Naquele momento, um cara de 31 anos chamado Malik Miller apareceu me avisando para não fumar isso. Ele contou que se viciou em K2 em 2012 quando sua mãe cometeu suicídio, mas logo se viu preso a uma droga que o fazia agir erraticamente e que acabou o afastando do resto da família.

“Eu tinha vacilado com a minha esposa e ela não me quis de volta porque disse que eu fumava K2”, ele explicou. “Ela sabe tudo sobre mim. Não tem ninguém no mundo como a minha esposa. Fodi minha vida inteira.” Apesar de isso ter destruído seu relacionamento, Miller continuou fumando a droga – até ver um vídeo seu num momento “fora de si”. Malik pegou um celular LG de tela quebrada e me mostrou um vídeo dele no banheiro do abrigo com a cabeça enfiada numa pia. Ele estava usando um só sapato e parecia muito perto da morte. “Eu estava completamente fora de mim”, ele narrou, enquanto assistíamos ao vídeo.

Ao mesmo tempo em que ele contava como a droga descarrilou sua vida, Bless se levantou e começou a perguntar quando o cigarro que eu tinha comprado ia começar a passar pela roda. Ele continuou a me pressionar até se tornar um pouco intimidador; logo, lhe entreguei o baseado.

“Você vai dar um dólar assim?”, ele perguntou, sem acreditar, rindo de sua sorte enquanto acendia o baseado.

“Isso leva muita merda na mistura.” – Professor Marcel Roberts

Todo mundo que conheci na Clarkson me fez duas perguntas, uma literal e uma retórica: se eu sabia o que tinha no que eles estavam fumando e por que eles não podiam fumar maconha normal em vez disso.

A entrada do abrigo na Clarkson Avenue, Brooklyn.

Para descobrir a resposta para a primeira pergunta, visitei Marcel Roberts, professor do John Jay College of Criminal Justice, em Manhattan, especializado na química de drogas sintéticas e explosivos. Apesar de Bless ter fumado o K2 que eu pretendia levar para testar, eu ainda tinha um pacote de cinco gramas de “Smacked”, que um socorrista me falou que tinha caído do bolso de um cara que estava tendo convulsões.

Essa marca de K2 cheirava a Gatorade lima-limão e tinha o desenho de um sapo zumbificado no pacote.

Numa tarde de terça-feira, Robert colocou um pouco da substância num tubo de ensaio e acrescentou metanol. Depois de passar isso por uma máquina de cromatografia gasosa e espectrometria de massa – basicamente um forno gigante que separa cada componente químico da substância –, ele pôde dizer exatamente o que os sem-teto do Brooklyn estavam fumando regularmente. O único material orgânico na amostra analisada era Clausena lansium, uma planta nativa do Sudeste Asiático, mas, em se tratando da coisa que realmente dava barato, o professor teve alguns problemas.

“Acho que isso leva muita merda na mistura”, ele explicou enquanto me entregava os resultados. Cada pico do gráfico apresentava diferentes compostos, e eles eram quase incontáveis. No entanto, o mais proeminente – o químico mais bem representado na mistura – era muito similar ao JHW-018, uma das primeiras drogas sintéticas proibidas pelo DEA.

Na verdade, a única diferença entre a sustância proibida e a da amostra era a presença de alguns químicos adicionais que provavelmente não afetavam a experiência do usuário, segundo Roberts. Ainda assim, estava escrito no pacote que isso não continha JWH-018.

Até o químico mais amador consegue colocar coisas supérfluas num canabinoide; por isso, é quase impossível regular essas substâncias: os fabricantes podem mexer na fórmula assim que isso é proibido.

“A química evolui muito rápido, é impossível acompanhar”, pontuou Roberts. “[As drogas] são modificadas em alguma parte que não altera sua função, mas afeta seu status para não ilegal.”

Assim, respondendo a primeira pergunta dos moradores do abrigo: o tipo de K2 circulando nas ruas e enchendo os leitos dos hospitais em 2015 é muito parecido com o tipo que vem causando ultraje na mídia nos últimos cinco anos.

Quanto à segunda pergunta: se estivessem fumando maconha, esses caras poderiam levar uma multa. E, até agora, parece que ninguém está policiando o uso de uma droga muito mais perigosa. Um porta-voz do Departamento de Polícia de Nova York me disse que os policiais devem confiscar esse entorpecente e mandar até um laboratório para verificar se isso contém um dos canabinoides proibidos. No entanto, parece que os policiais não estão fazendo disso uma prioridade – pelo menos, não em East Flatbush. Um porta-voz do Departamento de Bombeiros da cidade comentou que eles preferem deixar a tarefa de confiscar narcóticos para a polícia.

Ian Michael, diretor de relações públicas da Corporação de Hospitais e Saúde de Nova York, não sabia de cara a política dos hospitais da cidade quando se tratava de confiscar K2. “Boa pergunta. Não faço ideia”, ele admitiu por telefone. “Confiscamos ou devolvemos?” Michaels garantiu que descobriria qual era a política oficial, porém parou de atender minhas ligações algum tempo depois.

Até que algo mude, o ciclo vai continuar: levantar, fumar alguns cigarros, desmaiar, acordar no hospital e repetir. E, enquanto a temperatura sobe em agosto, o mesmo deve acontecer com o número de pacientes.

“Quanto maior o calor, mais isso afeta a estamina deles”, me falou o socorrista do Brooklyn enquanto observava o perímetro da Rua Clarkson. “Tem três caras ali na esquina prestes a desmaiar. Se subir mais cinco ou seis graus, eles vão ser meus próximos três pacientes.”

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