Epidemia de crack atinge dois milhões e coloca Brasil no topo do ranking de consumo da droga

Usuário fica dependente com facilidade por velocidade com que substância chega ao cérebro

Do R7*

Droga causa problemas respiratórios severos, além de afastar usuário de familiares e amigos por conta do vícioAndré Freitas/AGNEWS

Larrissa, a personagem de Grazi Massafera na novela Verdades Secretas, se perdeu no mundo do crack. Magra, abatida e totalmente dependente, ela perambula pelas ruas em busca da droga. Assim como na ficção, na vida real, o crack (variação mais barata da cocaína) pode causar perda de apetite, do sono, depressão, e pode até matar, de acordo com especialistas ouvidos pelo R7. Só o Brasil representa 20% do consumo mundial de crack, e é o maior mercado da droga no mundo. No País, aproximadamente dois milhões de pessoas já usaram a droga, segundo a pesquisa mais recente do Lenad (Levantamento Nacional de Álcool e Drogas), realizado em 2012 pela Unifesp.

Ivan Mario Braun especialista do IPq (Instituto de Psiquiatria) do HCFMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP), autor do livro Drogas, perguntas e respostas, afirma que o crack tem efeitos extremamente nocivos ao organismo. Uma das piores consequências é conhecida como “pulmão de crack”.

— É quando a pessoa tem o comprometimento do tecido pulmonar. É muito agressivo. Acaba corroendo as vias respiratórias e pode até levar à morte, mas, antes de prejudicar a respiração, os efeitos são febre, falta de oxigênio no sangue, insuficiência respiratória e catarro na garganta.

Porém, os impactos no organismo do crack no organismo podem ser devastadores devido à velocidade e potência com que seus componentes chegam ao pulmão e ao cérebro, segundo alerta o psiquiatria e psicólogo, responsável por pesquisas de ensaio clínico para o tratamento de dependência por crack da Unifesp, André de Queiroz Constantino Miguel.

— Geralmente, pessoas que fazem uso dependente de crack tendem a ficar mais impulsivas, irritáveis e com maior oscilação de humor. Com o tempo, ficam mais explosivas quando frustrados ou questionados sobre seu consumo por amigos ou familiares. Seus interesses por atividades alternativas diminuem e seu foco se restringe basicamente às atividades ligadas ao uso.

Além disso, Miguel alerta que a necessidade do crack pode deixar a pessoa mais agressiva.

— A vontade de consumir e não ter a droga disponível no momento causa maior agressividade e estresse, porque ela realmente precisa daquela quantidade de substância para se sentir motivada.

Segundo ele, o pico do efeito chega de 20 a 60 segundos depois do consumo e esse mesmo ápice dura de dois a cinco minutos.

— É a forma de absorção mais rápida que existe, até por isso, sua dependência é mais grave e seu padrão de consumo mais compulsivo.

Como a ação da droga é muito rápida, o usuário acaba consumindo mais pedras durante o dia, porque não consegue ficar em abstinência, explica o especialista do HC.

— É a chamada fissura. A pessoa fica apática. O efeito é oposto de quando a pessoa usa a droga, quando ela fica mais ligada e elétrica.

Dependência é rápida

Drogas estimulantes como o crack, a cocaína, a anfetamina e a metanfetamina, por exemplo, têm padrão diferente, porque hipersensibilizam o cérebro de forma mais intensa, que pra alguns vai promover o padrão de dependência mais forte e rápido,  segundo diz presidente da Abead (Associação Brasileira de Estudos de Álcool e Drogas), Ana Cecília Marques.

— Pode chegar até à psicose cocaínica, que é quando a pessoa se vê perseguida, tem delírios e paranoias, pois está em um alto grau de intoxicação pela substância.

Segundo a especialista, toda pessoa que consumir crack, nem que seja somente por uma noite, vai apresentar quadro de depressão.

— Altera a dopamina e noradrenalina, que são os principais hormônios do cérebro, que modulam o humor e a frequência cardíaca, principalmente. Como libera toda a carga desses hormônios, o cérebro entra em crash, que é a depressão, porque altera a química cerebral.

Crack reduz apetite e leva à subnutrição

O crack também pode levar a perda de apetite, causando a perda de peso do usuário e até a subnutrição, alerta Ana Cecília.

— A droga atinge as áreas do cérebro responsáveis pela sensação da fome. O usuário dependente simplesmente deixa de comer. A droga afetou tanto essa área do cérebro que ele não sente mais fome. O centro de apetite está totalmente bloqueado.

Além disso, há também a perda de sono, além de afetar mecanismo de motivação, pois o desejo da pessoa é apenas pela droga, de acordo com Braun.

— A droga atua sobre os sistemas de vigília e alerta do cérebro, o encéfalo. A substância excita muito o sistema de gratificação, que está envolvido na motivação, por isso a agitação e a sensação de euforia, que leva à diminuição do sono. A dependência faz a pessoa focar somente na droga e esquecer o resto. Além disso, pode também causar a perda de ereção, já que a droga causa o fechamento dos vasos sanguíneos em todo o corpo.

Outra consequência no organismo é a perda de apetite sexual. Miguel conta está ligado à liberação de dopamina.

— Durante o período de uso existe até uma excitação, por isso perdem o foco e só pensam na droga.

Família é fundamental no tratamento

A tendência do usuário do crack é se afastar de amigos e familiares que não fazem uso e de se aproximar de quem usa o crack, explica o pesquisador da Unifesp.

— Quando o consumo chega a um padrão extremamente compulsivo, o indivíduo passa a ter problemas econômicos graves e passa a roubar seus familiares, o que traz ainda mais conflitos com a família.

O usuário, inclusive, deixa de apresentar sentimentos como o carinho e demais sentimentos afetivos.

— Em geral, sua prioridade afetiva está na droga. Se o usuário der ouvidos às pessoas mais queridas, que, geralmente, querem seu bem e por isso querem que ele pare de usar drogas, ele viverá um conflito entre essa fala e seu desejo de usar. Por isso, enquanto ele escolhe usar a droga, tende a diminuir sua empatia pelas pessoas.

Miguel ainda afirma que a família é fundamental para o sucesso da luta contra o vício.

— Quando a família participa do tratamento a chance aumenta muito. Mas sempre depende da postura do paciente. Em alguns momentos sua crítica pode estar comprometida, mas na imensa maioria das vezes os usuários têm discernimento sim de onde estão e onde gostariam de estar.

Não avaliação de Ivan Mario Braun a pessoa precisa ter força própria para sair da droga, mas que a família precisa buscar ajuda profissional para saber lidar com o usuário na busca do tratamento. A família deve começar a intervir quando o usuário apresentar mudanças de comportamento, como a perda do sono e do apetite, por exemplo, complementa a presidente da Abead.

— É muito difícil a pessoa sair sozinha, ainda mais quando é jovem, porque não se vê dependente. Aí entra o papel da família de ajudar. Mas a pior situação é das pessoas que perderam tudo, que não têm família, e ficam lá, como animais vivendo nas ruas esperando a atuação do Estado.

*Colaborou Brenno Souza, estagiário do R7

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