Prisões de usuários no Ceagesp superam as da Luz

Diário de S. Paulo

Estudo da evolução desses números fornece mais elementos que confirmam migração de viciados em crack

Por: Fernando Granato

A presença dos usuários de crack trouxe um grave problema para quem trabalha / Luis Blanco/Diário SP

Eles foram chegando em duplas, depois trios e hoje já são centenas. No início, provocavam apenas a impressão de que o local um dia fosse se transformar numa nova Cracolândia. Agora já sustentam uma estatística que confirma: a região da Ceagesp, na Zona Oeste, já superou o famoso ponto de viciados em drogas no  Campos Elíseos, onde fica a Cracolândia original, no Centro, em número de ocorrências por porte de drogas e apreensão de entorpecentes.

De acordo com a Secretaria de Segurança Pública, de janeiro a agosto deste ano o 91 Distrito Policial, que fica na região da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo, na Zona Oeste, registrou 65 ocorrências de porte de entorpecentes. No mesmo período, o 3 DP, de Campos Elíseos, teve 58 anotações do mesmo tipo. Já com relação à apreensão de drogas, o 91 DP teve 33 casos nos primeiros oito meses deste ano, contra apenas oito feitas na área do 3 DP.

Um estudo da evolução desses números fornece mais elementos que confirmam a migração de viciados em crack de um lugar para outro. Na Cracolândia original as ocorrências por porte de drogas, neste mesmo período, diminuíram 33%  em relação ao mesmo recorte de tempo de 2014. Já na área da Ceagesp, o movimento foi contrário: os mesmos casos (porte) cresceram 54%.

Num delito, entretanto, a delegacia de polícia do Centro continua imbatível: tráfico de drogas. De janeiro a agosto deste ano foram 244 ocorrências, contra apenas 27 na região do bairro da Zona Oeste. Os dados dos anos anteriores, com relação ao comércio dos produtos, acompanham uma tendência de evolução na área de Campos Elíseos e queda na Ceagesp.

Segundo  o especialista em segurança pública José Vicente da Silva, isso acontece porque é mais fácil afastar das ruas os usuários do que os traficantes. “Certamente a polícia intensificou o trabalho com os usuários da Cracolândia, e muitos deles migraram para a Ceagesp”, disse. “Já o traficante fica mais escondido e é mais difícil de ser encontrado.”

De fato, uma caminhada pelas ruas da Vila Leopoldina confirma que o bairro virou também um lugar escolhido pelos usuários de crack. Na Rua Mergenthaler e na Avenida José Cesar de Oliveira, grupos se instalam nas calçadas. O mesmo acontece na Rua Baumann, onde o metro quadrado está na ordem dos R$ 9.088, um dos mais caros da capital paulista.

RESPOSTA DA PREFEITURA

A Secretaria de Comunicação informou que a Prefeitura atua na região da Ceagesp dentro de suas responsabilidades e respeitando as especificidades das pessoas em situação de vulnerabilidade. “Cabe ressaltar que a questão do tráfico de drogas é de competência policial”, afirmou, jogando a responsabilidade para o governo estadual. “ A Secretaria Municipal da Saúde conta na região com uma equipe do programa Consultório de Rua, que tem como referência a UBS Parque da Lapa (que atende toda a região). As equipes são formadas por médico, enfermeiro, auxiliar de enfermagem, assistente social, psicólogo, agente social e agentes comunitários de saúde. De janeiro a agosto de 2015, a equipe da Lapa fez 1.349 atendimentos médicos, 754 atendimentos de enfermagem e 408 encaminhamentos para o Centro de Atendimento Psicossocial.”

Junto com o crack vieram os roubos e furtos

Até há alguns meses eles só assistiam as cenas de viciados em crack, sujos e maltrapilhos, jogados nas calçadas ou usando a droga a céu aberto,  pela televisão. Agora, são obrigados a conviver com elas, lado a lado. Algumas vezes precisam enfrentá-las – ou melhor, fugir para não entrarem nas estatísticas de roubos e furtos.

A presença dos usuários de crack trouxe um grave problema para quem trabalha na região da Ceagesp. De acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, apenas nos primeiros oito meses deste ano foram 1.002 ocorrências de furtos e 494 de roubos nos arredores da companhia na Zona Oeste.

Uma dessas vítimas foi Cláudia Pimentel, que trabalha numa empresa localizada próxima ao entreposto. “Há um mês eu saí para almoçar e um homem que parecia usuário de crack pegou meu braço por trás e me pediu o telefone celular”, contou. “Foi tudo muito rápido, mas agora decidi evitar sair a pé na hora do almoço.”

Quando não tem outra alternativa e precisa caminhar pelas ruas próximas ao trabalho, Cláudia esconde o aparelho telefônico na bota. “Mas não sei se adianta”, disse. “Eles podem ficar até mais revoltados (por não encontrar o que roubar) e fazer alguma maldade comigo.”

Para evitar maiores problemas com seus funcionários, empresas da região contrataram vans e micro-ônibus para levar os empregados a estacionamentos próximos e, assim, evitar assaltos e roubos.

“Ficamos presos em nosso trabalho e só podemos sair acompanhadas ou numa van”, reclamou Cláudia. “Isso é revoltante. O mais lógico seria a polícia atuar de forma mais preventiva por aqui.”

Entrevista com José dos Reis Filho, Sociólogo:

Coordenador do Núcleo de Estudos, Pesquisas e Extensão sobre Situações de Violência e Políticas Alternativas, da Unesp (Universidade Estadual Paulista), José dos Reis Filho é uma das maiores autoridades na interpretação de dados sobre segurança pública.

DIÁRIO_ A que o senhor atribui essa migração de parte dos usuários da Cracolândia para a região da Ceagesp?

JOSÉ DOS REIS FILHO_ A vários fatores. O maior deles talvez seja a ausência ou a falta de presença do poder público nesses lugares. Se o estado está presente, por meio de serviços sociais, de saúde, ou mesmo pela polícia, a tendência é diminuir a presença dos usuários de crack nessas comunidades.

E isso foi o que aconteceu na região da Luz?

De certa forma sim. As ações lá desenvolvidas provocaram um impacto nessa comunidade específica, não necessariamente um impacto positivo.

E a questão do tráfico de entorpecentes?

O tráfico se acomoda conforme os usuários se acomodam na região. Acontece que é menos visível do que o usuário, por isso demora mais para ser verificado por meio das estatísticas. Geralmente, primeiro vem a presença do usuário.

A ausência do estado é então fator predominante para o surgimento dessas novas cracolândias na capital?

Sem dúvida. Isso determina o fluxo migratório dos dependentes químicos.

RESPOSTA DO GOVERNO DE SP

A Secretaria de Segurança Pública informou que houve alta de 18% nos flagrantes de tráfico de drogas, de 135% nas apreensões de entorpecentes e de 4% no número de pessoas presas em flagrante na área do 91 DP (Ceagesp) nos oito primeiros meses de 2015, em comparação com o mesmo período de 2014. A PM informou que a região conta com policiamento constante. Em ações, 42 suspeitos de furto e de 18 suspeitos de roubo foram presos. A delegacia disse que a maioria dos furtos não tem relação com moradores de rua.

MAIS:

Ciclista filma usuários de crack e é agredido

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Projeto com trailers continua no papel

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