Vício e degradação do crack já atingem a terceira idade

JC NET – Bauru e grande região

Droga passa a fazer parte de uma idade que deveria ser de maturidade

Aceituno Jr.
C2aj51414
Adultos: alguns deles já passaram até em concursos, mas caíram diante da forte dependência

Quem, em algum momento da vida, não pensou em abandonar a realidade que atire a primeira pedra. Especialmente quando essa realidade é sinônimo de graves problemas, muitos não resolvidos.

Os princípios éticos, religiosos e a estrutura familiar seguram muitos de nós. O mesmo não acontece com quem atinge a 3ª idade acumulando  insucessos, desilusões, solidões e baixa autoestima. Para essa parcela da sociedade, atender os requisitos exigidos pela sociedade contemporânea não é tarefa fácil e a fuga da realidade é uma das opções. Se refugiar na bebida era a alternativa viável, mas houve uma mudança e o crack passou a fazer parte da história de vida dessa parcela da população.

O álcool é o “produto” legalizado que a cada dia atraía mais e mais adeptos e era usado também pelos idosos. Nos últimos dois anos, o legalizado passou a ser substituído pelo ilegal e o que já começa a existir são pessoas na faixa dos 60 a 65 anos usuárias de crack. Não formam uma legião, mas preocupam, na opinião da titular da Secretaria do Bem-Estar Social de Bauru, Darlene Tendolo.

GRADATIVO

“O crack  passou a ser experimentado por alguns idosos que consumiam pinga. Temos poucos casos, mas temos observado essa mudança de perfil. O usuário apresenta decadência em sua saúde. A porta de entrada do crack sempre foi a maconha e o álcool. É droga barata, com R$ 5,00 é possível comprar uma pedra.”

Na opinião dela, o crack na vida do idoso não é algo que vá perdurar. “O idoso não faz uso contínuo. Ele usa, mas guarda valores do passado. É uma fase pequena que ele fica nessa situação, temos observado isso.  Temos trabalho de fortalecimento de vínculos familiares para apoiá-lo e incentivá-lo a abandonar o vício.”

‘PRISÃO’

Já a usuária de crack Maria (nome fictício), de 62 anos, chamada de ‘tia’ pelos usuários mais jovens, acredita que sair do crack não é tarefa fácil.

“Não tem como. Eu mesma não acredito. O uso do crack é uma doença e deveria ser tratado como tal. Muitas vezes pensamos em deixar, mas não temos esses meios. A vida é difícil e o crack me traz paz.”

Uma das mais antigas moradoras da favela São Manuel, mora lá há 46 anos. Ela conta que  depois de criar os filhos e trabalhar durante anos, adotou o crack para viver momentos de ‘felicidade’ junto a comunidade em que vive. Na opinião dela, na favela não há como ficar fora das drogas. “Não tenho para onde ir. Aqui eu vivo com eles e como todos usam drogas eu tenho que usar também para me inserir nesse meio.”

Mulher volta ao crack após 22 internações

Joana (nome fictício) tem 35 anos é uma privilegiada no item aparência. Cabelos encaracolados que mesclam um castanho com dourado. Pernas bem torneadas com o charme de uma pequena tatuagem próximo ao tornozelo. Fala bem e é desinibida. Vive na favela São Manuel, mas sua família é de Barra-Bonita. Não fosse o crack, essa mulher que já é avó seria uma funcionária pública do estado. Passou em concurso e durante um período curto foi auxiliar de necropsia em Jaú.

Não conseguiu ficar no emprego porque o vício a chamou de volta. “Eu conheci o crack aos 13 anos e desde então nunca mais larguei. Tenho filho que vive com minha mãe. Sou avó e faz cinco anos que não vejo minha família, abandonei tudo. Ligo e falo com minha mãe todos os dias. Ela pede para eu ir para lá. Eu prometo que vou no fim de semana, mas não digo qual. Um dia… quem sabe.”

Ela explica que sem o crack fica violenta. “Estou há cinco dias sem dormir, fico até nove. Tomo banho no Centro Pop e logo volto para cá. Para comprar pedras eu me prostituo e pego reciclável. Não roubo. Me alimento para não ficar como muitos que se entregam a droga. Não quero chegar lá.”

A mulher comenta que por 22 vezes foi internada e em nenhuma delas conseguiu superar o vício. “As psicólogas me perguntam porque fui para o crack. Eu não tenho uma explicação objetiva. Usei maconha, cocaína e estou no crack. Fico internada na base do medicamento, não consigo ficar sem a droga. Já fui para o hospital Tereza Perlat 14 vezes e depois passei por Campinas, Santa Fé do Sul. Em nenhum deles encontrei a saída. Precisa opinião.”

Sobre ter opinião, a jovem avó diz. “Seria preciso mudar tudo, morar longe dos usuários e ter uma opinião firme. Teria que usar medicamentos fortes. Mas tenho púrpura, uma doença muito discriminada na nossa sociedade”, alega.

Para sustentar o vício, Joana se prostitui. Não tem medo da gravidez e diz que não faz sexo com preservativo. “Sou operada, não posso mais ter filhos. Não penso em doenças. Quero viver”, por mais contraditório que pareça. Ela comenta que o vício pode ser hereditário. ‘Meu pai bebia. Minha mãe não bebe e nem fuma. Tenho outros irmãos, mas só eu estou no crack.”

Uma noite, sim; outra, também

Quem transita pela rodovia Marília/Bauru nem sempre nota. Mas numa via paralela, altura do Fortunato Rocha Lima, um grupo de usuários se reúne todas as noites, aconteça o que acontecer. São usuários de crack que ficam queimando as pedras e se vangloriando da sensação de liberdade que ela provoca.

Sueli (nome fictício) tem 62 anos encontrou no crack o “remédio” para suas questões não resolvidas. Em meio a um grupo de jovens a figura dela chama a atenção. Quem poderia imaginar que uma pessoa nessa idade se envolveria com drogas? Mas é o caso dela. Prostrada sobre um cobertor surrado, ela passa a noite e a madrugada saciando o seu vício. Não quer conversa, tem olhar parado, avermelhado e semelhante aquele visto em peixe morto. Do lado, o cachimbo se mistura a um pedaço de pão, doces e um leite que voluntários acabaram de deixar.

É ali que a senhora idosa assiste a madrugada começar e terminar como num passe de mágica. Qual é a sua dor? Ninguém sabe. Assim como ninguém sabe o grau de sofrimento daqueles que compõem o seu grupo.

‘Ronda’ por sexo e pedra

A entrada dos idosos no uso do crack é, para Joana, 35, um item que faz a diferença. “Eles são safadinhos. Trocam sexo por pedra. Eu preciso da pedra e eles de sexo. Muitas vezes, usamos juntos. A droga dá um efeito inexplicável. Muito bom.”

Ao redor dela, como moscas rondando doces, homens de mais idade se revezam numa ida e vinda sem fim. A “ronda” feita por eles é explicada pela usuária. “Eles ficam superativos e andam de um lado para outro. Quando passa o efeito do crack, eles queimam outra pedra. Os ‘tiozinhos’ são cada vez mais presentes aqui. Têm sexo e droga”.

Desilusões amorosas motivam uso de droga

E não só isso: perda do emprego e dos laços familiares é ‘combustível’ para a dependência

O que leva ao uso de drogas? Na opinião da titular da Sebes, Darlene Têndolo, a desilusão amorosa é o principal item. Seguido da perda do emprego. “Quando o homem perde o emprego, perde a  identidade, deixa de ser o provedor da família. Por isso a incidência maior  de gente nas ruas é do sexo masculino. A mulher segura mais a questão sentimental  e a  perda do emprego. Ela consegue se reorganizar, sai do emprego formal e vai fazer bico. Vira diarista.”

A importância do apoio familiar é enfatizada pela secretária. “Quando a pessoa está desesperada a família precisa dar apoio. Observamos a tristeza deles quando falam do passado. Eles relembram do emprego, dos filhos e da família de modo geral.”

Para a psicóloga Cássia Cerigato Usó, quando um familiar se envolve com drogas é sinal de que algo na família falhou. “Hoje a droga é oferecida em todos os lugares. Ninguém vai sair de casa para buscar cocaína, crack  ou qualquer droga se não está sofrendo. Vários fatores pode estar interferindo, falta estrutura emocional, psicológica ou familiar. O uso da droga deixa a pessoa emocionalmente bem, poderosa.”

Ela explica que a estrutura familiar é tudo na vida das pessoas em qualquer idade. Sem ela, a pessoa não consegue se livrar dos problemas que a vida impõe e muitas procuram o caminho da fuga.

“No caso dos pais só 20% correm atrás de ajudar os filhos. Vão procurar saber o que acontece. Mas tem família que fecha os olhos, porque é muito mais fácil do que assumir que tem um filho usuário de drogas.”

ACEITAR

Na opinião dela, ninguém está totalmente preparado para enfrentar uma situação dessas. “Ter um familiar envolvido com drogas é difícil de aceitar. O primeiro passo é a aceitação. Todos precisam de tratamento e não só o usuário. Enquanto o problema é no vizinho é fácil. Dentro da casa dela é tudo perfeito, mas quando acontece, essa pessoa desmorona, mexe com todo mundo. Isso ocorre independente da condição social. Tanto faz ser na favela como no interior de um condomínio.”

No caso dos idosos, a profissional acha que além da substituição da pinga pela droga, essa pessoa também mistura medicamentos com bebida alcoólica. “Ela tem acesso a muitos medicamentos. Está na idade da depressão física e mental. Muitos problemas não resolvidos pesam sobre ela.”

Um nó na garganta

C2aj51419

Quando os pais não prestam atenção no comportamento dos filhos deixam a porta aberta para a entrada de drogas na família. “Os pais precisam ficar atentos. A maioria está usando drogas há tempo quando os pais descobrem. Começaram há cinco ou  10 anos. E agora como resolver aquilo que começou lá traz? Eu não posso dizer que tem solução. Depende de um conjunto de ações. Precisa saber se o usuário quer melhorar. Ele precisa de ajuda porque sozinho não vai conseguir resolver”, enfatiza a psicóloga Cássia Usó.

Na opinião dela, os pais precisam fazer com que os filhos cumpram regras dentro de casa. “Os pais têm que fazer certas imposições. Normas e limites nós temos em qualquer lugar, no trabalho, fora dele. Dentro de casa também tem que ter. Esse filho tem que saber que na hora que ele ultrapassar os limites terá que pagar por isso. A família tem que cobrar. Não adianta impor e não cobrar.  Do contrário ele vai achar que é tudo de fachada e passa a transgredir.”

Dar tudo não é a solução, ressalta a psicóloga. “Não adianta dar um carro último tipo, roupas, sapatos se não der carinho e atenção. Os filhos precisam saber que são importantes para os pais. Há filhos que relatam que eles não existem para os pais. Dizem que o pai  vive os problemas dele, a mãe, os dela e ele como fica?  Há pais que não dão bom dia para os filhos, não almoçam nenhum dia da semana com a família. A família não tem tempo disponível para aquela pessoa.”

O pai, de modo geral, se omite. O filho culpa a mãe por tudo o que acontece. Talvez seja uma maneira de chamar atenção da família.

Na verdade, o usuário está gritando: socorro. O pedido não ocorre só em relação as drogas. “Eu trabalho com crianças que têm parentes envolvidos com drogas. A criança cresce num ambiente não saudável para ela. Não é só o envolvimento com drogas, mas é o estupro, a violência e tantos outros itens. Num primeiro momento os pais ficam surpresos, mas só 20% correm atrás para resolver.”

Noite de quinta após o temporal

Noite de quinta-feira, dia 22 de outubro, pós-temporal em Bauru. A equipe do JC deixa a redação para constatar o que acontece no mundo ou no submundo das drogas, mais exatamente nos pontos conhecidos como “cracolândia”. A expectativa é de que não vamos conseguir encontrar o que queremos. Afinal a temperatura sofreu uma queda e há uma ameaça de mais chuva.

Mas para nossa surpresa, as “cracolândias” funcionam 24 horas, com sol ou com chuva. Sob o viaduto da rua 13 de maio encontramos o primeiro grupo de usuários. Jovens que abandonaram a vida para curtir momentos de prazer, ainda que momentâneos. Nesse grupo, um rapaz de 32 anos, bem vestido e calçado com aparência saudável aceita conversar e conta sua história de maneira truncada, talvez cheia de confusão mental, mas com educação e respeito.

Sem pai e nem mãe ele se classifica como dependente e diz que usuário de crack não tem cura. Uma decepção para a equipe que esperava ouvir que ele, pelo menos ele, pretendesse abandonar a vida vazia. No mesmo local, verificamos mulheres mais maduras no mesmo ritmo da droga. Usando crack e se misturando a restos de lixo. Na favela São Manuel, encontramos mais uma senhora que trocou as noites de insônia pelo crack. O abandono bateu na porta dela e ela cedeu ao vício.

Nas proximidades do Fortunato Rocha Lima, mais surpresas: mais uma senhora que deveria estar no conforto de sua casa, queimando crack. Nesse grupo, alguns dos usuários estavam revoltados, rasgaram os sacos de roupas levados pelos voluntários, queriam bens que pudessem ser trocados por pedra.

Madrugada a dentro e as situações foram se repetindo. Mais e mais jovens usando drogas. Algumas se prostituindo em troca de uma pedra, outras comprando e os dias passando.

No final da jornada a equipe chega à conclusão que somos abençoados. Podemos visitar esses lugares  para trabalhar e não para buscar os filhos. Uma lição de vida.

Mães não dormem; usuários não param

Você sabia que enquanto você dorme há milhares que mulheres que abraçam o travesseiro e rezam, oram e pedem a ajuda do sobrenatural para proteger seus filhos? São mães de usuários de drogas que passam a noite e a madrugada esperando a volta do filho para casa. E eles estão em toda parte, independente da situação social.

João [nome fictício] tem pouco mais de 30 anos e é usuário de crack. Veio de São Paulo onde abandonou a namorada, uma advogada e um emprego na construção civil, uma vida estável. Fala que perdeu os pais e que está sob o viaduto da 13 de maio, área central da cidade, porque brigou com a irmã, com quem estava morando em Bauru. “Resolvo meus problemas fumando crack. Resolvo por alguns momentos. Fico feliz. É fantástica a sensação que ele provoca em mim. Cheguei a queimar mil reais em um final de semana com o crack. É muita adrenalina. Sou dependente. Abandonei o trabalho para ser feliz.”

Anúncios

Sobre Clínica Alamedas

A dependência química está relacionada a diversas questões, seja no aspecto psicológico, biológico, social, econômico ou cultural de toda a família e pessoas ao redor do paciente. A clínica Alamedas possui uma estrutura completa com profissionais competentes e experientes para ajudar cada paciente e a sua família a superar a dependência química, com qualidade de vida e saúde.
Esse post foi publicado em Notícias. Bookmark o link permanente.