G1 entra em cracolândias no ES e registra a realidade de usuários

G1

Vitória tem mais de 6 mil usuários de crack, segundo a Fiocruz.
Estudo diz que 78% são negros, 12,8% pedem esmola e 7% se prostituem.

Rodrigo Rezende e André Falcão Do G1 ES e da TV Gazeta

‘Lauro’ é um nome fictício, mas a história dele é real. Ele tem 30 anos e usa crack desde os 16. Ainda jovem, perdeu os pais. Se envolveu com “pessoas erradas” e, por causa do vício, foi abandonado pelos irmãos. Antes da droga, trabalhou com carteira assinada e ajudou com as despesas de casa. Hoje, vive na rua ou em Centros de Atenção Social. Está desempregado, mas faz ‘bico’ de ajudante de pedreiro. Em uma briga, perdeu a visão de um dos olhos e agora tenta se aposentar.

G1 só ficou sabendo da história do ‘Lauro’, porque, conseguiu entrar em quatro cracolândias da Grande Vitória, durante o mês de dezembro de 2015. Na capital, a reportagem passou na Praia do Suá (atrás da antiga Giacomim), na Vila Rubim (perto da Ponte Seca) e no Sambão do Povo. Na Serra, o ponto foi em Jardim Limoeiro (perto da entrada da Vale).

'Lauro' foi encontrado na cracolândia, na Serra (Foto: Fernando Estevão/ TV Gazeta)
“Lauro” foi encontrado na cracolândia,
na Serra (Foto: Fernando Estevão/ TV Gazeta)

Questionado se havia contado a própria história para alguma outra pessoa que não estivesse sob o efeito do crack, ‘Lauro’ disse que, na rua, ninguém havia nem olhado para ele e, muito menos, dito ‘bom dia’, pelo menos uma vez, em todo o ano passado. “As pessoas acham que a gente é bandido, mas a maioria tem família e é gente de bem. Estamos doentes”, comentou.

O ‘Lauro’ é um dos mais de 6 mil usuários de crack registrados, na região metropolitana de Vitória, até 2014. O dado é da última ‘Pesquisa Nacional sobre o Uso do Crack’, realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que deve ser apresentada ainda no primeiro semestre de 2016. O levantamento anterior a este mostra que, somando capitais e o DF, são mais de 370 mil usuários de crack, o que corresponde a um número maior que a população de cidades como Vitória, Palmas e Boa Vista.

No Brasil, 79% dos usuários são homens e 58% têm ensino fundamental. Sendo que, nas capitais, 78% são negros. A pesquisa ainda aponta que só 2% tem ensino superior, 12,8% pedem esmola e 7% se prostituem para ter a droga.

Em uma cracolândia na Vila Rubim, no Centro de Vitória, uma mulher, que não vai ser identificada, topou conversar e contar como consegue dinheiro para comprar crack. Para pagar pelas 10 pedras que fuma por noite, ela se prostitui. “Arrumo dinheiro ficando com homem, fazendo programa”, disse.

Outro caso conhecido nesta imersão pelas cracolândias é de um professor de capoeira que voltou a usar o crack depois de dois anos livre. “Se usou uma vez, viciou. Podem passar 15, 20 anos, que vai voltar a usar. Basta ver ou sentir o cheiro, que bate a vontade de usar de novo. Ele (o crack) veio pra acabar com a vida do homem, de qualquer pessoa”, disse.

Usuários de crack saíram da Ponte Seca, em Vitória (Foto: Fernando Estevão/ TV Gazeta)
Usuários de crack saíram da Ponte Seca
(Foto: Fernando Estevão/ TV Gazeta)

Migração
Além do esquecimento e abandono, a reportagem, há dias percorrendo as cracolândias, constatou que existe uma grande migração de usuários, que vão de um lado para o outro das cidades. Por exemplo, debaixo da Ponte Seca ficava a maior cracolândia de Vitória. Agora, o local está vazio. O grupo migrou para o Sambão do Povo depois do início da obra de restauração da ponte.

Ainda em Vitória, outros prontos migratórios ficam entre a Praia do Suá, perto da antiga Giacomim; na Avenida Leitão da Silva, próximo a escola estadual; e na Praça do Cauê, em Praia de Santa Helena.

Os usuários alegam que migram por causa da postura da polícia e da população. “A polícia chega, despreza, faz o quer. Eles deviam perguntar se a gente quer um tratamento e não chegar logo batendo. Dependendo do lugar onde nós estamos, a classe média alta, com sua discriminação, ao invés de conversar e explicar, chama a polícia, que vem agredindo”, disse Lauro.

A migração das cracolândias se tornou um problema mais evidente em Vitória, nos últimos tempos, e para o coordenador nacional da pesquisa sobre o uso do crack, Francisco Bastos, o usuário deve ser atendido por uma equipe integrada (formada por médicos, assistentes sociais, psicólogos, dentistas) e que tenha mobilidade (um ônibus ou van que vá à cracolândia com estes serviços).

“O que vem funcionando é integração de cuidados básicos de saúde (médicos e odontológicos), com a assistência social e o tratamento de dependência química. Se você tenta colocar o paciente só no tratamento da dependência, geralmente ele vai embora. O trabalho da Segurança Pública deve ser de inteligência, contra o grande operador (grande traficante), que não está neste território. O trabalho da Saúde Pública é o contrário. Tem que atuar neste território, que é onde está a pessoa vulnerabilizada, em situação de rua, pobre e doente”, alerta.

Outro ponto levantado pelo coordenador da pesquisa é que o cenário do crack na Grande Vitória é diferente do perfil de cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, onde o mercado da droga é “maduro e saturado”. Francisco diz que a cena capixaba se aproxima com a do Nordeste, onde o crack chegou mais tarde e ainda não tem a mesma “pressão” do eixo RJ-SP. As cracolândias da Grande Vitória são de porte médio e de alta sazonalidade.

“Ao contrário do que as pessoas pensam, verificamos que o São Paulo e Rio Janeiro não são os locais onde mais cresce o uso de crack. Na verdade, estes são mercados maduros e saturados. O mercado que mais se expandiu foi o do Nordeste. Porque o crack chegou lá mais tarde e, também, houve um aumento de renda. Este movimento também é visto no Espírito Santo. As pessoas se deslocam onde tem menos visibilidade, menos pressão. Por isso que deve aumentar o uso na periferia de Vitória”, disse o coordenador.

Usuário de crack em Vitória (Foto: Fernando Estevão/ TV Gazeta)
Usuário de crack em Vitória (Foto: Fernando Estevão/ TV Gazeta)

Efeito
Quando entra no organismo, o crack age direto no sistema nervoso central da pessoa. Acelera o batimento cardíaco, podendo causar um AVC. O efeito da droga é muito rápido. “Vão de dois a três minutos. É muito rápido. Você esquece de tudo”, diz um usuário, na Praia do Suá. Outro rapaz contou que sente vontade de roubar para comprar a droga, mas tenta se controlar. “Tenho vontade de roubar. Toda hora”, disse.

Prefeituras
A Prefeitura de Vitória informou que em 2013 deu início ao  programa “Onde anda você?”. Equipes promovem a reinserção social das pessoas que estão na rua, incluindo o usuário de drogas.

São profissionais de várias áreas da saúde que trabalham de segunda a segunda. Oferecem tratamento, acolhida, retorno à cidade de origem, reinserção familiar e aluguel social.

Em 2013, Vitória tinha 732 pessoas vivendo na rua. Hoje, são 130 pessoas, que se concentram em dez pontos da cidade.

A Prefeitura da Serra informou que também aborda as pessoas que vivem na rua e usam drogas. Elas são encaminhadas para tratamento de saúde. A prefeitura disse que oferece tratamento contra álcool no Centro de Atenção Psicossocial que fica localizado no Parque Residencial Laranjeiras.

Polícia
A Polícia Militar enviou uma nota e disse que a droga deixou de ser apenas um problema de segurança e virou uma questão de saúde pública e social. Por isso, a participação das prefeituras é imprescindível para desenvolver ações específicas para atender aos moradores de rua.

Sobre a violência de policiais relatada por um usuário, Secretaria de Estado da Segurança Pública respondeu, em nota, que “a Polícia Militar desconhece qualquer registro de abordagem violenta a moradores em situação de rua. A PM atua quando é chamada pela população nas ocorrências criminais praticadas por usuários de drogas”.

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