Tráfico de drogas inicia crianças e adolescentes na criminalidade

Correio de Uberlândia – Por Diogo Machado

Número de jovens ligados ao tráfico cresceu mais de 14% entre 2014 e 2015 (Foto: Marcos RIbeiro)

Ítalo, Eduardo, Beatriz e Samara são nomes fictícios de adolescentes reais com idade entre 14 e 16 anos, que têm histórias parecidas de vida, marcadas pelo envolvimento com drogas, crimes ou conflitos domésticos. Os quatro jovens moram em casas simples, têm mais de dois irmãos e tiveram contato ainda na infância com pessoas ligadas ao tráfico. Eles fazem parte de uma estatística que mostrou, entre 2014 e 2015, um aumento acima dos 14% na quantidade de jovens envolvidos com o mundo das drogas, número considerado preocupante por organizações e instituições que integram o Sistema de Proteção à Criança e ao Adolescente. A reportagem do CORREIO de Uberlândia saiu às ruas para conhecer um pouco da realidade de jovens envolvidos com drogas e, por consequência, com a delinquência.

Aos 14 anos de idade, introspectivo e de pouca conversa, Ítalo repete, pela segunda vez, o 6º ano do ensino fundamental. A educação do adolescente foi interrompida duas vezes de 2014 para cá. Em ambas, o motivo foi seu envolvimento com crimes e drogas. Em 2015, ele foi apreendido e ficou 20 dias no Centro Socioeducativo de Uberlândia (Ceseu), o maior tempo que passou na unidade. “Fui apreendido a primeira vez com um celular que eu e um amigo pegamos de uma menina no Terminal Central. A segunda vez também foi por furto”, disse.

A mãe de Ítalo, Maria, de 50 anos, que tem outros seis filhos, contou que quando ele foi pego pela segunda vez toda a família foi abalada. “Foram os piores dias da minha vida. Muito humilhante ir até o Ceseu, ter que tirar a roupa para passar por revista para visitar o meu próprio filho. Foram dias muito ruins e difíceis. Graças a Deus agora ele regenerou”, afirmou a mãe em lágrimas e com a voz embargada.

Ítalo usou maconha pela primeira vez aos 11 anos e conta que espera parar, inclusive, abandonando os amigos que lhe apresentaram o vício. “Meus amigos me ofereceram e eu aceitei, daí comecei a fumar. Hoje eu estou parando, mas continuo com o cigarro normal”, afirmou o adolescente que fuma, em média, 10 cigarros por dia. Atualmente, Ítalo cumpre serviço comunitário e frequenta semanalmente o Crescer Socioeducativo, onde consulta com psicólogo e aprende informática.

Elas

A situação de garotas envolvidas com a criminalidade não é muito diferente da dos garotos. Elas, embora não passem internação, dizem sofrer tanto quanto eles. É o caso de Beatriz. Grávida do segundo filho, aos 16 anos de idade, ela ainda fuma maconha. Beatriz disse que foi usuária de crack, mas que conseguiu parar com esta droga quando engravidou pela primeira vez. A adolescente perdeu o primeiro filho. Ela foi encontrada pela reportagem na praça da Bíblia, no bairro Martins, setor central de Uberlândia. Ela fumava um cigarro quando concedeu entrevista. “Nunca cometi nenhum crime. Peço dinheiro na rua e assim eu vou vivendo”, disse a garota tentando esconder o sorriso sem alguns dentes. Ela reclamou da falta de apoio da família, contou que o irmão está preso por tráfico e que a mãe os abandonou há cerca de 8 anos. Eles vivem com a avó paterna.

A jovem Samara, por sua vez, virou o jogo. Literalmente. Aos 15 anos, a garota que já usou loló, maconha e cocaína, joga futebol para uma equipe de um bairro na zona leste. “A bola mudou minha vida. O professor cobrava muito e eu vinha na quadra só para fumar (maconha), agora é só bola. Sou boa nisso”, disse a adolescente que retomou os estudos e se inspira na seleção brasileira feminino, Marta.

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Pouco me importa ser apreendido, diz o menor Eduardo de 14 anos

Se a jovem Samara conseguiu largar as drogas e se vangloria disso, o mesmo não acontece com Eduardo, de 14 anos. Acostumado com o “pessoal”, ele conta que não se importou em ir para o Ceseu no ano passado duas vezes. Segundo ele, a primeira vez, por 53 dias, foi dolorosa, pela distância da família e da filha de 6 meses que já tinha. “A segunda vez, foi no ano passado mesmo. Fiquei 5 meses e agora estou pagando de fora, com serviço comunitário”, afirmou o menor, que começou a usar drogas aos 11 anos.

Suas duas prisões foram por tráfico, mas ele explicou que para traficar é preciso dinheiro e, para isso, cometeu outros crimes. “Tenho ainda um roubo, um furto e uma receptação. Mas não fui pego em nenhuma dessas, eles só me apontaram com a galera”, disse o adolescente que vive em união estável com uma jovem de 17 anos e planeja estudar e ter outros filhos. Ele afirmou que está em busca de um emprego, mas que, para isso, precisava fazer o documento de identidade que ainda não tem.

Números em outros crimes tem queda

Crianças e adolescentes em Uberlândia correspondem a 28,9% das pessoas envolvidas com tráfico de drogas, conforme estudo divulgado pela Polícia Militar (PM). Ao todo, 749 dos 2.572 detidos em flagrante, no ano passado, por este tipo de crime, tinham menos de 18 anos. A comparação entre os anos de 2014 e 2015 mostrou aumento de 14,9% na quantidade de menores envolvidos com tráfico, de 644 para 749, respectivamente.

Nos dois últimos anos, outros crimes, como furto, ameaça, e receptação, por exemplo, apresentaram queda de 7,2%, 44,44% e 10,08%, respectivamente. Porém esses adolescentes ainda representam, em média, 16,9% dos detidos neste tipo de crime.

Neste ano, 294 adolescentes cumprem medidas socioeducativas nas unidades do Crescer, 98 delas cumprem serviço comunitário e 196 estão em liberdade assistida. Em 2015, foram 859 adolescentes cumprindo essas medidas. No ano anterior, 2014 foram 785.

Uberlândia tem crianças e adolescentes em acompanhamento constante

A cidade de Uberlândia tem três das quatro medidas socioeducativas aplicadas em Minas Gerais. O Meio Aberto, composto pela Liberdade Assistida e a Prestação de Serviços à Comunidade, é administrado pelo Município, por meio dos Centro de Referência Especializado em Assistência Social (Creas), Crescer Socioeducativo e Crescer Protetivas. Sob tutela do Estado, estão a internação e a internação provisória, feitas no Centro Socioeducativo de Uberlândia. Considerado o último recurso pelo o promotor da Infância e Juventude, Jadir Cerqueira.

Ele revela que todo o esforço do sistema protetivo da criança e do adolescente na cidade é para que o menor não termine no Ceseu. “Ali nós estamos falando de isolamento social, de um ambiente fora da família, quando na realidade a gente identifica que o trabalho não precisa ser feito só com o adolescente. Tem que ser com toda a família, que, em sua maioria, vive em vulnerabilidade social”, afirmou.

Segundo ele, para reduzir o número de menores infratores, é preciso a ampliação dos serviços de identificação e redução de riscos, como a abertura de novos conselhos tutelares. “Antes de se tornar um infrator, esse menor teve algum direito violado. Seja o da educação, seja o da família, ao desenvolvimento físico, moral e espiritual. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é perfeito em sua constituição, mas sua aplicação é que precisa ser melhorada”, disse o promotor.

Acesso à educação pode mudar a realidade de jovens delinquentes

Denise diz que a capacitação é a melhor ferramenta de combate (Foto: Marcos Ribeiro)

É consenso entre os grupos que formam o sistema de proteção à criança na cidade que a educação é o elemento fundamental na formação de profissionais melhor capacitados para o atendimento de menores envolvidos com drogas e o afastamento deles da criminalidade. “Entramos com uma ação em que o juiz decidiu que nenhuma criança ou adolescente pode ficar fora da escola. A escola, além de regenerar para quem está ruim, ela impede que você vá para o crime”, afirmou Jadir Cerqueira, promotor da Infância.

Pesquisa feita pelo promotor em 2009 apontou que a cada 100 adolescentes que praticaram crimes, que tinham seus casos levados à Promotoria, 70 deles cometeram os delitos quando deveriam estar na escola. Ao mesmo tempo, o promotor aponta que a capacitação dos profissionais que faz a identificação das crianças vítimas de violência deve ser maior. “A criança vítima de qualquer privação de direito, que vive em um ambiente instável, de vulnerabilidade, tende a criminalidade”, disse.

Para a secretária de Desenvolvimento Social e Trabalho, Denise Ferreira Portes de Lima, todo o processo tem como objetivo mudar a trajetória de vida desses adolescentes. “O comprometimento dos profissionais da rede aumentou, o atendimento à família em vulnerabilidade melhorou e a possibilidade de mudança da realidade dessa criança está sendo alcançada. Tudo é um resgate e ampliar esse atendimento e identificação das crianças com os direitos violados é nossa melhor ferramenta para não ter um adolescente infrator”, afirmou.

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