Uso de drogas sintéticas avança em Araraquara

Tribuna Araraquara

Aumento do consumo em festas e nas ruas da cidade preocupa polícia, poder público e quem trabalha com a prevenção

Araraquara.com / Gabriela Martins

Drogas pelo mundo

“Aqui em Araraquara, as drogas sintéticas, como as ‘balas’ [Ecstasy] ‘doces’ [derivado do LSD] e lança-perfume são muito encontradas em festas e baladas. Há dez anos uso a ‘bala’ aos finais de semana. Não sou fisurado, mas gosto da ‘brisa’ que ela me dá na balada”, conta o estudante de 30 anos que preferiu não se identificar.

Ele explica ainda que gosta da droga porque ela ‘dá energia para as festas’. “A ‘bala’ dá o efeito de um energético e você acha que pode fazer de tudo. Já o ‘doce’ acho que é muito forte, deixa a pessoa delirando e por isso nunca tive interesse. Assim como também nunca tive interesse em outras drogas, como maconha, cocaína e crack”, ressalta o estudante.

Divulgação Polícia Militar

Drogas e materiais de manipulação apreendidos no Yolanda Ópice

Ele é um dos vários consumidores de drogas sintéticas que cresce a cada ano, em Araraquara.
A maconha e a cocaína ainda são as drogas mais consumidas no município, mas as drogas sintéticas ganham cada vez mais as ruas e festas, em especial as fechadas, realizadas em áreas de lazer e chácaras. Essa droga faz com que a pessoa perca totalmente o controle e pode até mesmo levar à morte.

As apreensões desse tipo de droga começaram a ocorrer com maior frequência no segundo semestre do ano passado. Em outubro, a Guarda Municipal de Araraquara apreendeu, de uma só vez, 52 pontos de LSD e e duas cápsulas de ecstasy. Na ocasião, quatro rapazes foram presos e levados à Dise (Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes). Eles afirmaram que teriam comprado a droga pela internet, em um grupo fechado de uma rede social.

Neste ano, as polícias Militar e Civil, além da Guarda Municipal, apreenderam pelo menos 24 comprimidos de ecstasy e 25 pontos de LSD.

As drogas sintéticas são aquelas produzidas a partir de uma ou várias substâncias químicas psicoativas que provocam alucinações por estimular ou deprimir o sistema nervoso central. Elas são basicamente produzidas em laboratórios clandestinos e distribuídos em festas.

Combate – De acordo com o delegado Seccional Fernando Giaretta, a Dise vem acompanhando esse avanço, porém de maneira sigilosa. “As drogas estão sempre se renovando e Araraquara não foge dessa tendência, que é nacional. As drogas sintéticas ainda são mais caras, mas logo deve começar a ser barateada”, acredita Giaretta.

Ainda segundo o delegado, o consumo das drogas modifica e cresce, mas na mesma intensidade aumentam as investigações e prisões realizadas. “Quanto mais a polícia fica em cima, mais ela se aprimora, por isso os grupos vão se fechando cada vez mais”, destaca o delegado seccional.

A busca por ajuda cresceu nos últimos meses – De acordo com o presidente do Comad (Conselho Municipal Antidrogas), Márcio Servino, a busca de familiares de usuários por ajuda tem crescido nos últimos meses. “Temos como parâmetro, para apontar o avanço das drogas sintéticas, o próprio relatório da ONU (Organização das Nações Unidas). Em Araraquara começamos a ter procura por ajuda de casos relacionados às drogas sintéticas a partir de 2014. Nos últimos seis meses, dez famílias já buscaram por ajuda”, explica Servino.

Divulgação

O presidente do Comad, Márcio Servino

Ainda de acordo com Servino, as drogas são consumidas em festas fechadas, não apenas nas famosas raves, mas também nos ‘Funks Ostentação’. “Essa droga faz com que a pessoa perca totalmente o controle, podendo levar à morte. O tratamento para usuários dessa droga é igual aos demais, porém, com um tempo de duração maior”, conta Servino.

Toda a droga é metabolizada pelo fígado, podendo levar a uma série de problemas como cirrose e câncer. Mas além de afetar o físico e o psicológico do usuário, a droga também traz distúrbios comportamentais. “As drogas sintéticas, em especifico, pode causar efeitos neurológicos gravíssimos, até mesmo tendência suicida, em alguns casos”, finaliza Servino.

Uso de drogas – Para o presidente do Comad, Márcio Servino, dos 200 adolescentes atendidos no ano passado, mais de 60% já havia usado algum tipo de droga sintética. “Muitos não gostaram e se sentiram muito mal durante e após o uso”, explica.

O que leva um jovem às drogas? – Para o psicólogo Rogério Fioranelli, a busca pelas drogas pode ocorrer basicamente por dois motivos: fuga e busca de diversão. “Inicialmente, a busca pela droga visa fugir de algo ruim, aversivo, como uma angústia, ou ainda para pertencer a um grupo – tipo vou usar senão não irei mais pertencer aquele grupo. E essa fuga tem a ‘diversão’ como consequência”, destaca o psicólogo.

Ainda de acordo com Fioranelli, em alguns casos, o jovem precisa de uma ‘balinha’ ou um ‘doce’ para se divertir, já que hoje muitos estão perdendo um pouco das habilidades sociais, por conta da internet. “Se comunicar essencialmente pela internet, ou celular, acaba prejudicando o pessoal. Assim, esse tipo de droga te deixa mais social. Quando o assunto é rave, a ‘bala’ serve basicamente para dar um gás para você aguentar a maratona de horas de música eletrônica e assim sentir menos as ‘mazelas’ no fim da festa”, ressalta.

Comportamento – Ainda segundo o psicólogo, o usuário da droga sintética não tem um comportamento estereotipado. “Muitos apresentam essa vontade de estar sempre em rave, mas geralmente, no dia a dia, não há uma perda social. Há casos de pessoas que usaram e realmente abalou o psicológico dela ou que mexeu com a parte bioquímica. E aí tem as consequências que vai levar pelo resto da vida”, finaliza.

Drogas – No dia 1° de abril, três pessoas foram presas por tráfico de drogas na Vila Ferroviária. A PM (Polícia Militar) encontrou maconha, cocaína, ecstasy e LSD. Em março, os policiais encontraram dois vidros de anabolizante, um saco com cerca de 15 comprimidos de ecstasy e um ponto de LSD, no Yolanda Ópice.

Análise

‘A cada ano que passa, o avanço é maior’

Maconha e cocaína são as duas drogas ilícitas mais consumidas em Araraquara.
Mas o avanço das drogas sintéticas, como LSD, doce o ecstasy, entre outras, com substâncias alucinógenas, vem ganhando espaço.
A droga sintética ainda é para um grupo mais elitizado, porém essa droga começa a se expandir. Alguns usuários acabam optando em usar o LSD, por exemplo, que custa entre R$ 25 e R$ 40 e tem a duranção de mais ou menos oito horas, no lugar de três cigarros de maconha, que custa R$ 10 e dá um ‘barato’ de apenas 40 ou 60 minutos cada.
Entretanto, o que a pessoa não conta é que a química é forte e tem efeito avassalador no organismo. Essa droga faz com que a pessoa perca totalmente o controle, podendo levar à morte.

Para piorar, os jovens vem se tornando hoje um poliusuário, ou seja, misturando essas drogas sintéticas com bebidas alcoólicas e outras drogas, o que é muito perigoso.

Hoje, o que vemos muito é também um aumento das festas ‘Funk Ostentação’ e nas raves, onde grande parte desse consumo é por ‘modinha’ e a busca pelo prazer. Um prazer arriscado.

Por conta disso precisamos de um programa de combate às drogas comuns e sintéticas, uma política de prevenção efetiva.
Assim, é preciso que os pais se informem e dialoguem com os filhos. Infelizmente, se o contexto da família falhar, não há política pública que resolva.

Marcio Servino
Presidente do Comad e especialista em dependência química pela USP

EFEITO DAS DROGAS NO ORGANISMO

LSD – Causa menos dependência química, provoca alucinações graves e o transtorno pode ser potencializado com outras drogas

Ecstasy – Causa excitação, euforia, desidrata e elimina o sódio dos rins e hipertermia (elevação da temperatura do corpo

Crack -Pode causar queimaduras e câncer nas vias aéreas; acaba com a vida social, pois a pessoa sai de casa para sustentar o vício

Cocaína – Droga estimulante que atinge o sistema nervoso central e cardiovascular, podendo causar taquicardia e infarto

Maconha – Causa dependência, amnésia, diminui sensação de distância, pode causar esquizofrenia e câncer nas vias aéreas

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Sobre Clínica Alamedas

A dependência química está relacionada a diversas questões, seja no aspecto psicológico, biológico, social, econômico ou cultural de toda a família e pessoas ao redor do paciente. A clínica Alamedas possui uma estrutura completa com profissionais competentes e experientes para ajudar cada paciente e a sua família a superar a dependência química, com qualidade de vida e saúde.
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