Uso de inalantes artesanais como droga aumenta em Rio e SP

O Globo

Número de pessoas atendidas em centros psicossociais mais que triplicou desde 2014

POR DANDARA TINOCO / MARIANA SANCHES

‘Às vezes fico quadro dias sem dormir e uso o loló porque me acalma’, diz usuária – Leo Martins

RIO E SÃO PAULO — Elza* segura Maria*, de 2 meses, nos braços enquanto conta que encontrava no conteúdo de uma pequena garrafa de plástico a satisfação para um dos seus desejos mais intensos ao longo da gravidez. A jovem de 23 anos ignora a composição do loló, mas conhece intimamente os efeitos que a droga produz.

— Às vezes fico quatro dias sem dormir e uso o loló porque me acalma. Quando você dá um “puxinho”, escuta um sino e vê um monte de coisa. Depois de um tempo, sente muita dor no corpo todo — descreve Elza, pele negra, corpo miúdo. — Só não uso perto da minha filha. Vou num cantinho para cheirar e, aí, não amamento, dou a mamadeira. Senão faz até mal à criança, né?

Mãe de quatro filhos — além de Maria, tem meninos de 7, 6 e 3 anos —, ela conta que, nos últimos dois anos, vem reduzindo o consumo de substâncias entorpecentes desde que passou a frequentar o Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD) Miriam Makeba, em Bonsucesso, Zona Norte do Rio. Eventualmente, consome cocaína, além do loló. Ela desfia histórias infelizes ao explicar porque se lançou ao uso abusivo de drogas. Aos 10 anos, saiu de casa depois de o pai tentar estuprá-la e a mãe agredi-la. Começou a consumir álcool e tíner. De lá para cá, usou “de tudo e mais um pouco”.

Narrativas similares à sua vêm sendo relatadas a profissionais de saúde de Rio e São Paulo. A percepção deles é de que está se intensificando o uso de inalantes fabricados artesanalmente, com substâncias variadas, como cloridrato de etila, éter, soda, removedor de tinta, acetona e até substâncias retiradas de baterias de carro. Há relatos de óbitos relacionados à inalação. Os especialistas explicam que o consumo do loló é profundamente ligado ao modo como os usuários vivem e constroem relações sociais. E, não raro, é combinado com o de outras drogas, como crack, cocaína e álcool. Os usuários são, sobretudo, jovens em situação de rua e frequentadores de bailes em periferias, os “fluxos” na gíria paulistana. Traficantes vendem as garrafinhas por módicos R$ 5, mas há também a produção feita pelos próprios usuários. As informações sobre o grau de dependência são imprecisas. No entanto, os depoimentos sobre efeitos alucinógenos e colaterais coincidem com os de Elza.

No ano passado, 246 pessoas atendidas por Caps ADs do Rio informaram uso recente de inalantes em geral, mais que o triplo de 2014, quando foram 76 registros desse tipo. De janeiro ao dia 7 deste mês, foram 83 casos relatados. Embora pondere que o aumento talvez reflita a ampliação do atendimento, o superintendente de Saúde Mental da Secretaria municipal de Saúde, Hugo Fagundes, confirma que profissionais de diferentes áreas têm observado um crescimento “impressionante” do consumo. Em São Paulo, organizações que atuam na periferia tentam ampliar o diálogo com jovens sobre a questão. Entre as possíveis causas para a disseminação, especialistas citam o aumento do preço de outras drogas e o fácil acesso aos componentes com os quais o loló é fabricado.

— É como o antigo lança-perfume, só que turbinado. Em três minutos no máximo ele provoca o “tuim” e transporta o usuário para uma outra realidade — relata Myro Rolim, especialista que atua na periferia paulistana pela Prefeitura.

Diretor do Caps AD Miriam Makeba, Daniel Elia tem avaliação semelhante à do paulistano. Embora não seja possível determinar a composição da mistura que está sendo chamada de loló, ela não corresponde ao entorpecente usado no passado:

— Não sabemos bem o que é isso, mas os usuários ficam muito alterados e confusos. O efeito parece ser mais forte e duradouro. Um tempo após o uso, as pessoas passam mal com dores — detalha, acrescentando que, com frequência, o uso do loló é intermitente e associado a outras substâncias.

Também atendido pelo CAPS, João*, de 32 anos, diz que o inalante chega em galões num dos pontos de vendas de drogas em que comprava a substância.

— Há um tempo não uso e nem tenho vontade de usar, tô suave. Vi um amigo morrer ao cair da moto depois de baforar. Um outro teve um ataque nervoso — conta.

Entre os efeitos provocados pelo uso do loló estão o desmaio (desejado por alguns usuários pela sensação de leveza que produz), lesões cerebrais e parada cardíaca. Esta última pode levar à morte.

— Ainda não sabemos explicar o que provocou a volta à cena dessas substâncias, mas sabemos que o aumento do uso é considerável — afirma o psicólogo Thiago Calil, do projeto ResPire no Fluxo, feito em parceria com a Secretaria municipal de Direitos Humanos de São Paulo, que há oito meses circula por bailes funk paulistanos para estudar a questão.

Entre as hipóteses para o aumento do consumo de loló está a interação entre drogas. Segundo a professora Zila Sanchez, integrante do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o loló pode funcionar para diminuir a paranoia causada pelo crack, por exemplo. A professora explica ainda que os inalantes provocam o que é chamado de efeito bifásico.

— Há uma ação de estímulo, que dá prazer, mas também uma ação de depressão do sistema nervoso central. Simultaneamente aos efeitos alucinógenos auditivos, como zumbidos no ouvido, a fala fica pastosa — descreve. — O consumo das pessoas em situação de rua e dos frequentadores de baladas se dá por motivos diferentes.

A opinião de Zila é corroborada pelas observações de Calil e Rolim. Nos bailes de funk ostentação, em São Paulo, o uso de loló está ligado ao status. Tanto que os produtores, que também são usuários, fazem questão de adicionar à mistura corantes que identifiquem a fonte de fabricação.

— Os meninos competem para ver quem faz o melhor loló. Ao mesmo tempo, o uso para eles está ligado à vontade de obter prazer imediato. Já fui a favelas fazer palestra em que era difícil pedir para que os adolescentes se preservassem. No meio da minha fala, descobri que eles tinham uma aposta. Quem conseguisse sobreviver até o fim do ano, ficava com o dinheiro — conta Rolim.

O uso por pessoas em situação de rua também está ligado à busca do prazer mas, primordialmente, se destina a combater também dores existenciais e físicas. Às vezes, um grupo de garotos que não atingem 16 anos e circulam pelo Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, lançam mão do inalante apenas para aplacar a fome.

Os especialistas sabem, nesse contexto, que é difícil dissuadi-los do abuso no uso no curto prazo. Nesses casos, a primeira ação é fornecer orientações que reduzam os danos.

— As pessoas que estão marginalizadas institucionalmente têm alguns padrões de resposta associados ao fato de a violência fazer parte de uma vivência delas. Elas são agentes dessa violência, mas, sobretudo, vítimas. Faz parte do nosso trabalho pensar em como desenvolver uma estratégia clínica que faça frente a isso. Trabalhamos com redução de danos: o tratamento vai na direção de que a droga saia do protagonismo da narrativa daquela vida — afirma Daniel Elia.

*Nomes fictícios

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