Levantamento inédito mostra que 98 novas drogas sintéticas surgiram em 2015

Drogas sintéticas foram produzidas para eventos de música específicos

Crédito: EMCDDA

O levantamento é do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência. Neste ano, já são pelo menos 20. Com fabricação fácil, menor preço e até propaganda na internet, esse tipo de droga está ganhando espaço muito rapidamente.

CBN – Ciência e Saúde

Por Pedro Durán

Vendida como aromatizador de ambiente, a maconha sintética tem inúmeros nomes e incontáveis fabricantes.

No Brasil, conhecida como incenso do diabo, a droga pode ser muito mais forte do que a canabis tradicional.

A regra vale praticamente para todas as drogas sintéticas: bombas de substâncias alucinógenas altamente perigosas concentradas em poucas gramas.

No fim do mês, o Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência vai lançar um relatório com o panorama do comércio e do consumo de drogas em toda Europa. Nas contas deles, pelo menos 98 substâncias foram criadas e comercializadas no ano passado. Neste ano, já são mais de 20.

O maior fabricante desse tipo de droga é a China, de onde elas se espalham para o mundo todo.

A quantidade de novas combinações dificulta a atuação dos órgãos públicos para proibir e fiscalizar as substâncias, o que abre espaço para o livre comércio, como explica a pesquisadora do Observatório, Rita Jorge.

‘As drogas anteriores, as drogas ditas tradicionais, a pessoa precisava conhecer alguém para poder comprar. Estas, não. E como não são, nem todas são ilegais, o que aconteceu: empreendedores começaram a se introduzir na área e a fazer marketing. De repente em uma área das drogas, que era tudo escondido, temos agora campanhas de promoções, ofertas, temos cartões de fidelização, portanto todas essas coisas acontecem’, explica Rita.

A Unidade de Pesquisas em Álcool e Drogas já tem aprovação do governo federal para fazer um novo levantamento brasileiro sobre o assunto. Mas, por uma questão de repasse dos recursos, isso só deve acontecer no ano que vem.

No último dado de 2014, a estimativa é de que até 1,6 milhão brasileiros já tenham experimentado algum tipo de droga sintética. Para o coordenador da Uniad, Ronaldo Laranjeira, o número praticamente dobrou em apenas dois anos e pode ter alcançado os 3 milhões.

Na opinião dele, a multiplicação da droga se deve à facilidade do comércio com auxílio da tecnologia.

‘A droga sintética ela usa a própria rede social para fazer esse tipo de distribuição. Então ela é realmente um desafio novo sob vários aspectos, não só pelo componente químico diversificado, como nós falamos, mas também da forma de distribuição e das formas de uso das drogas tradicionais’, diz Laranjeira.

O desafio já se reflete nos números da Polícia Federal, principalmente em relação ao ecstasy, uma das principais drogas sintéticas. Nos quatro primeiros meses de 2016, foi apreendida apenas 1% da média anual dos últimos três anos.

Rafael Franzini, representante do escritório da ONU para Drogas e Crimes no Brasil, destaca a facilidade de produzir esse tipo de substância.

‘Você não produz cocaína em todo o mundo. E as drogas químicas podem ser fabricadas em quarto de hotel pela característica da droga. Então isso forma parte de uma realidade que tem que ter um olhar distinto. Isso dificulta o trabalho da polícia. Não só isso que dificulta, dificulta também a característica da droga’, explica Franzini.

Pra piorar a situação, as misturas não são controladas e os laboratórios do tráfico não se preocupam com a qualidade de seu produto, tornando a droga mais perigosa ainda, como explica Dartiu Xavier, diretor do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Unifesp.

‘Os levantamentos que foram feitos mostraram que 40 a 50% do que é vendido como ecstasy na verdade é anfetamina. Anfetamina é risco de você ter pressão alta, de ter uma sobrecarga no coração e poder ter um infarto até, mesmo sendo jovem. São os riscos muito parecidos com os da cocaína. E nesse caso a anfetamina associada com a cocaína é pior ainda, você dando duas coisas que tem esse risco, você aumenta o risco ainda mais’, diz Xavier.

A cocaína, por sua vez, aumenta ainda mais o risco de um problema cardíaco. Causadora de até um a cada três infartos em jovens, a droga é recorrentemente associada a outras drogas sintéticas, como explica Rui Fernando Ramos, da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo.

‘Você pode usar uma dose muito pequena e infartar ou pode usar uma dose muito grande e infartar. Nem com o tempo, você pode usar muitas vezes e não ter nada e um dia infartar. Ou pode na primeira dose ter um infarto. Não tem medida segura para a droga, nem em tempo de uso, nem em dose’, diz Ramos.

Na opinião de Angelo Campana, presidente da Associação Brasileira do Estudo de Álcool e Outras Drogas, o mais importante é deixar claro que por mais que possam parecer menos perigosas, as drogas sintéticas podem ser devastadoras.

‘A cultura nossa é droga estimulante, que leve à alegria, à festa, à comemoração. Pelo fato de essas drogas serem mais baratas que a cocaína, é mais fácil o tráfico delas também, que em vez de pacotes de pó, transportados por caminhões, são comprimidos. O efeito ele é mais agudo e um pouco mais potente também. É uma falsa noção de que é uma droga mais suave, e ela é, em curto prazo. Mas em médio e longo prazo ela é tão pior quanto com um poder de induzir dependência muito grande, principalmente a metanfetamina’, explica Campana.

Em toda a Europa, as autoridades fizeram 50 mil apreensões de drogas sintéticas no ano passado, recolhendo quatro toneladas de substâncias. Já no Brasil, os dados da Polícia Federal apontam a apreensão de pouco menos de 6,7 mil comprimidos de ecstasy neste ano. A PF não quis comentar os números.

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