James Taylor diz que parecia impossível chegar aos 68 anos, ao lembrar sua luta contra drogas

Estadão – Cultura

Como ícone dos anos 1960, James Taylor é imponente. Suas canções suaves continuam a ser tocadas e ele atrai multidões que enchem estádios em suas turnês. Seu último álbum gravado em estúdio, Before this World, lançado no ano passado, chegou ao topo das paradas, primeira vez desde o grande sucesso de 1970, Sweet Baby James.

Mas Taylor diz que a simples ideia de estar vivo aos 68 anos, sem falar em desfrutar de uma carreira ainda florescente, não parecia algo provável nem possível quando era o adolescente lutando com as drogas, doença mental e uma cruel indisposição das gravadoras.

“Realmente, não tinha nenhuma opção, além de compor música”, afirma Taylor, que nasceu em Boston e passou a infância entre Massachusetts e a Carolina do Norte, enquanto seu pai, professor e oficial da marinha, quase sempre estava longe de casa. Ele conta sua história com voz calma, comedida, sem melodramas ou compadecimento. Parece um garoto com todo o tempo do mundo, sem pressa para encerrar uma conversa, muito semelhante àquele que transformou You’ve Got a Friend, música da sua amiga Carole King, num hino à autoconfiança.

“Abandonei o colégio e gastei o dinheiro destinado a cobrir a faculdade num hospital psiquiátrico”, ressalta ele, referindo-se à época em que caiu na depressão e na dependência de drogas. “Estou apenas vivendo para o fim de semana”, como diz em Copperline (sua música de 1991). “Não pensava em nada, além disso. Minha família era educada e tinha expectativas a meu respeito. Eu deveria terminar a escola, fazer uma carreira, provavelmente acadêmica. Mas meus pais se separaram e eu desmoronei. Não sabia por quê. Não tinha nenhuma expectativa do que sucederia comigo.”

Para Taylor, ganhador de três prêmios Grammy, a música como salvaguarda não foi um clichê. Ele se tornou especialista em fingerpicking (a técnica de dedilhar cada corda com determinados dedos da mão direita) e em composição musical. Na casa paterna, cresceu ouvindo jazz, folk, blues e música clássica ligeira, mas seu gosto foi mais profundamente influenciado por um livro de hinos de igreja e Ray Charles.

“Hinos e canções de Natal são basicamente uma educação essencial, em que muito da música ocidental está baseada. Cresci em uma família nada religiosa e apenas quando fui para a escola é que conheci esse tipo de música e aprendi todos esses hinos. Foram minha formação: as harmonias, as estruturas dos acordes, o modo como eram desenvolvidos. É fundamentalmente música ocidental. Aprendi a tocar esses hinos e essas canções na guitarra para fugir do tédio, mas isso me deu a base para a música”, recordou.

Seu irmão o introduziu na música soul no fim dos anos 1950. “Lembro-me da primeira vez que ele me tocou Yes Indeed, de Ray Charles. Foi como se alguém tivesse mudado o mundo. Acendeu uma luz”, comenta ainda ele.

Taylor, ainda adolescente, desenvolveu seus talentos em bandas como Flying Machine, com a futura grande figura da guitarra Danny Kortchmar, mas todas as suas primeiras aventuras musicais implodiram. A ruptura da sua última banda, nos anos 1970, foi mencionada em uma das suas músicas mais famosas, Fire and Rain. “Doces sonhos e máquinas voadoras em pedaços no chão”, diz a letra.

Com a carreira praticamente sem futuro, James Taylor decidiu ir para a Inglaterra, mesmo sem ter alguma perspectiva realista de conseguir contratos ou gravação. Mas sua fita de demonstração chegou às mãos de Peter Asher, caçador de talentos da marca Apple dos Beatles e ele acabou se tornando seu empresário e maior defensor.

Os próprios Beatles o notaram e Paul McCartney e George Harrison tocaram no autobiográfico Carolina in My Mind sobre o autointitulado álbum de estreia de Taylor.

“Compunha música há cinco anos. Não fui um sucesso da noite para o dia”, conta Taylor, quando indagado se achou que foi afortunado ao chamar atenção dos Beatles.

“O álbum James Taylor não foi um sucesso comercial, mas me tornou conhecido e me ajudou a obter um outro contrato para gravar. Os Beatles tiveram esta grande ideia de um selo e uma organização administrada por e para artistas. Brian Epstein morreu e quem ocupou a vaga foi Allen Klein, que era um pirata. Peter (Asher) quis fazer uma auditoria (sobre as vendas de discos de Taylor), mas Allen Klein não permitiu. E, basicamente, nos ameaçou de processo. Ele não estava interessado em ninguém, Mary Hopkin, Jackie Lomax, Billy Presto – somente nos Beatles e em ganhar dinheiro.

O álbum seguinte de Taylor foi Sweet Baby James, que deu início a uma década que incluiu uma dezena de sucessos e uma antologia que vendeu 12 milhões. Mas o sucesso comercial do cantor e a união com Carly Simon foram complicados pelo abuso de drogas, que hoje ele descreve como uma nefasta tentativa para automedicar-se. Finalmente, Taylor venceu seu vício em metadona, adotando um regime de exercícios na década de 1980.

Com frequência, o uso de drogas por artistas do pop e rock é associado a hedonismo, mais do que dependência ou problema de saúde. A cobertura pela mídia da overdose fatal de remédios de Prince é um exemplo recente de como essas nuances são sufocadas pelo sensacionalismo e estereotipagem. Taylor diz que estudos recentes mostram que o número de mortes por overdose de drogas saltou de nove em cada grupo de 100.000 em 2003 para 15 em cada grupo de 100.000, em 2014. As mortes por overdose são provocadas em grande parte por dependência de analgésicos e heroína.

“Nunca foi um problema social, no meu caso. Teve um pouco a ver com depressão e se tornou o centro de uma vida muito tacanha. Não tem a ver só com estrela do rocks. Hoje, as corporações estão ganhado bilhões de dólares com droga. Não tem a ver apenas com estrelas do rock festejando. Esse desespero, essa aflição, é uma epidemia. A ideia de que isso tem a ver com artistas do rock que não têm fibra moral e se drogam até a morte está muito distante da verdade”, argumenta.

O fato de Taylor ter sobrevivido e seguido adiante é uma história que continua a deixá-lo perplexo e humilde. “De algum modo, não morri”, ele canta em Today, Today, Today, primeira música do seu álbum mais recente. “Achei que tinha encontrado a resposta para um problema, com as drogas”, avalia ele. “Felizmente, compreendi como estava errado, antes que fosse tarde demais.” / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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