Crack: devastação contínua e silenciosa

Fonte: Diário de Pernambuco

MATÉRIA ESPECIAL

Mesmo sem efeito visual das cracolândias, droga segue destruindo vidas de pernambucanos

Por: Wagner Oliveira – Diário de Pernambuco

Droga é produzida a partir da pasta base de cocaína e chega ao sistema nervoso central em 15 segundos. Foto: Teres Maia/DP

De forma silenciosa e, às vezes, escondida, o crack segue devastando vidas. Apesar da inexistência de espaços denominados de cracolândia em Pernambuco, o uso desse tipo de droga é grande no estado. Estudo realizado pelo Departamento de Saúde Coletiva do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães/Fiocruz Pernambuco identificou que mais da metade dos usuários de crack fazem uso do entorpecente em espaços fechados. Além disso, a pesquisa que entrevistou 1.062 pessoas no período de agosto de 2014 a agosto de 2015 identificou que mais de 30% dos usuários estão na faixa etária dos 18 aos 24 anos. Enquanto os trabalhos de repressão e investigação realizados pela polícia tentam reduzir a oferta da droga nas ruas, as ações desenvolvidas pelos governos estadual e municipal têm o objetivo de devolver a cidadania aos usuários, sobretudo aos que estão em situação de rua ou de vulnerabilidade.

A pesquisa da Fiocruz/Pernambuco além de traçar um perfil dos usuários de crack do estado, teve como objetivo proporcionar subsídios para a elaboração e monitoramento de políticas públicas voltadas para a melhoria das condições de vida e saúde dos usuários. Segundo a pesquisadora Naíde Teodósio, a maior parte dos usuários entrevistados no estudo é de homens. O público masculino ouvido na pesquisa foi de 77%. “Recife não tem cracolândias como as do Rio de Janeiro e São Paulo, com grandes concentrações de pessoas que estão vivendo naqueles pontos que também é um lugar de consumo. Aqui, as cenas de uso de crack têm números menores de pessoas e costumam ser itinerantes. Em geral, essas pessoas não vivem nos locais onde fazem uso da droga”, explicou Naíde.

Para conversar com os usuários de crack, as pesquisadoras entrevistaram pessoas que estão sendo atendidas pelo Programa Atitude, do governo estadual. “Escolhemos o Atitude por ele ser um programa regionalizado e que tem casas de acolhimento em quatro municípios, sendo três na Região Metropolitana, no caso do Recife, Cabo de Santo Agostinho e Jaboatão dos Guararapes e, no Agreste, com a unidade de Caruaru. Com o final da pesquisa, observamos que quase todas essas pessoas estão em situação de vulnerabilidade, têm baixa escolaridade, são excluídas socialmente, estão fora do mercado formal de trabalho, apresentam quebra de vínculos familiares e estão em situação de rua”, apontou Naíde Teodósio.

Ainda segundo a pesquisadora, grande parte dos usuários de crack têm filhos, mas não vivem com eles. “Muitos usuários entraram para o Programa Atitude com o objetivo de recuperar a guarda dos filhos. E nesses casos, o número de mulheres é bem maior”, destacou Naíde. Aos 37 anos, Jéssica (nome fictício) é mãe de três meninos. Usuária de crack há quatro anos, atualmente está sendo acompanhada pelo Programa Atitude. Em entrevista ao Diario, Jéssica disse que queria deixar o vício. Entre os motivos está a tentativa de recuperar os dois filhos mais novos, que estão vivendo em um abrigo. “Estou morando na rua, mas entrei na Justiça para pegar meus filhos. O mais velho de 15 anos mora com o pai, mas eu quero criar os outros de quatro e dois anos. Toda quarta-feira vou passar o dia com eles no abrigo”, revelou. A seguir, veja o que o poder público tem feito para ajudar os usuários de crack e confira depoimentos de usuários.

“O meu corpo está pedindo a droga”

Jonas (nome fictício) está sendo atendido pelo Programa Atitude e pretender largar o vício. Foto: Peu Ricardo/Esp/DP
Jonas (nome fictício) está sendo atendido pelo Programa Atitude e pretender largar o vício. Foto: Peu Ricardo/Esp/DP

“O crack é destruidor”. Essa foi uma das descrições usadas por um homem de 28 anos que disse estar tentando deixar o vício do crack. Jonas, como iremos chamá-lo, já foi casado, morou no Rio de Janeiro e teve dois empregos de carteira assinada. Trocou tudo pelas drogas. Quando conversou com a reportagem, na tarde da última terça-feira, estava há mais de uma semana se fumar crack e sem beber. “Estou aqui conversando com você, mas meu corpo está pedindo a droga. Tem horas que fico me tremendo todo. Para matar a vontade do crack e do álcool, eu fumo cigarro. Se não tivesse fazendo isso, já teria endoidado”, desabafou Jonas, que atualmente está sendo atendido em uma das casas de apoio do Programa Atitude no Grande Recife e espera transferência para o interior por ter sido ameaçado.

Quando chegamos ao endereço, cerca de 30 usuários de crack estavam na casa. Enquanto um pequeno grupo jogava uma partida de dominó, outros usuários assistiam a um filme na TV ou dormiam. Os mais animados, curtiam um som à beira da piscina que fica na casa de atendimento. Jonas estava entre eles, varrendo a área ao lado da piscina e olhou atento para a equipe de reportagem. Há mais de cinco anos teve o primeiro contato com o crack. Pela segunda vez está tentanto deixá-lo. “Comecei a fumar crack no Rio de Janeiro. Larguei do trabalho e fui com meu colega numa favela para comprar cocaína, que eu já estava usando. Com não tinha cocaína para vender, acabamos comprando crack mesmo. E desde a primeira vez que eu usei, fiquei viciado. Foi aí que começou a destruição da minha vida. Parei uma vez e depois tive uma recaída. Agora estou decidido. Não quero mais isso para mim”, assegurou Jonas.

Depois que retornar do período que pretende ficar no interior do estado, Jonas disse que gostaria de conseguir um novo emprego. Além de não estar trabalhando, está longe da família. A esposa ficou no Rio de Janeiro depois que ele voltou para Pernambuco. A cada dia, Jonas se afundava mais no crack. “Cheguei a roubar coisas da minha mãe do meu irmão para vender ou trocar por crack. Roubei na rua, fui preso. Fiz tudo isso para sustentar um vício que estava me dominando e magoei muito minha família. Ninguém é obrigado a suportar um viciado em casa. Quando eu parar de usar crack quero ter o meu trabalho e minha casa para morar e formar uma família. Quero ser normal como todo mundo. Sair de manhã para trabalhar e no final do dia voltar para casa, tomar um banho e jantar com seus parentes. E o bom de tudo isso é que minha família não desistiu de mim. Meu irmão veio aqui na casa me visitar e disse que acreditava que eu iria deixar o crack. Foi muito bom escutar isso dele”, confessou.

Aos 20 anos, o jovem que pediu para ser chamado de MC A pala faz uso do crack desde os 15. Apesar da pouca idade está nas ruas há algum tempo e revelou que não pretende voltar para a casa da mãe. “Eu fiz minha mãe sofrer muito quando morava com ela. Por isso acho melhor ficar na rua. Tive dois tios que morreram por causa do crack, mas também fiquei viciado. Agora, graças a Deus, estou dando um tempo. Faz dois meses que não uso crack”, declarou. Todos os dias, MC A pala vai até uma das casas do Programa Atitude, onde pode fazer as refeições diárias, tomar banho e descansar. Ele espera deixar o vício de lado, mas por enquanto, não está se tratando em nenhuma clínica. Assim como o colega Jonas. “Quando não estou aqui no Atitude, fico lá em Casa Amarela tomando conta de carros perto de um restaurante e uma lanchonete. Todo mundo de lá gosta de mim. Eles me dão comida e dinheiro”, revelou.

Apreensões seguem em alta no estado

A Polícia Civil de Pernambuco registrou um aumento de 28% no total de apreensões de crack em todo estado. Segundo o gestor do Departamento de Repressão ao Narcotráfico (Denarc), delegado João Leonardo Cavalcanti, de janeiro a setembro deste ano foram apreendidos 119 kg de crack pelos policiais da especializada. Ainda segundo o policial, no mesmo período do ano passado, foram apreendidos quase 93 kg do entorpecente. Já a Secretaria de Defesa Social (SDS) informou que as Operações de Repressão Qualificadas em todo o estado resultaram na apreensão de 465,7 kg de crack nos últimos oito meses. No mesmo período do ano passado, a quantidade apreendida foi de 512,5 kg.

Delegado João Leonardo afirma que uso em locais fechados dificulta ação da polícia. Foto: Paulo Paiva/DP
Delegado João Leonardo afirma que uso em locais fechados dificulta ação da polícia. Foto: Paulo Paiva/DP

De acordo com o delegado João Leonardo, de todas as apreensões realizadas no estado, um terço corresponde ao resultado do Denarc. “O crack é uma realidade na nossa sociedade. Mas só a repressão policial não vai conseguir suprimir esse consumo. Quanto às cracolândias, o Recife não tem cenários como os vistos em São Paulo. No entanto, existem alguns lugares fechados onde as pessoas se reúnem para fumar crack. Isso dificulta a ação policial. Para entrar em lugares fechados é preciso ter um mandado de busca e apreensão expedido pela Justiça”, explicou o delegado. Na pesquisa realizada pela Fiocruz Pernambuco, muitos usuários relataram que os próprios traficantes oferecem locais onde os usuários podem fazer uso do crack “em segurança”.

Na última quarta-feira, o Denarc incinerou mais de 1,4 toneladas de entorpecentes apreendidos na Região Metropolitana do Recife (RMR). Entre o material destruído havia crack, maconha e cocaína. Os entorpecentes foram apreendidos pelo Denarc e demais unidades da Polícia Civil de Pernambuco no Grande Recife no período de janeiro a setembro deste ano. A incineração contou com o apoio da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), do Poder Judiciário e do Ministério Público de Pernambuco.

“Não quero deixar de fumar crack”

Fernanda (nome fictício) tem dois filhos e diz que não pretende deixar o crack. Foto: Peu Ricardo/Esp/DP
Fernanda (nome fictício) tem dois filhos e diz que não pretende deixar o crack. Foto: Peu Ricardo/Esp/DP

Quem passa pela Rua Imperial, no bairro de São José, no Recife, já deve ter observado uma concentração de pessoas embaixo do Viaduto Capitão Temudo a qualquer hora do dia. Segundo a polícia e entidades de ajuda a usuários de drogas, esse local tem se tornado ponto de consumo. Foi lá que encontramos Fernanda (nome fictício). Mãe de dois filhos, desempregada e com 37 anos, ela disse que não pretende deixar de usar a droga.

Há quanto tempo você está usando o crack?
Faz dois anos que fumei o crack pela primeira vez e fiquei viciada muito rápido. Algumas pessoas que eu conheço estavam usando e um dia me ofereceram. Eu sabia que poderia fazer mal, mas mesmo assim eu provei. Hoje eu uso o crack quase todos os dias.

Como você consegue dinheiro para comprar a droga?
Faço programas sexuais ou peço dinheiro às pessoas para comprar o crack. Cada pedra que a gente compra é R$ 10. Quando bate a vontade de fumar, a pessoa faz qualquer coisa. Hoje mesmo eu já fumei. Estou aqui só esperando anoitecer para ir em casa tomar um banho.

Você mora com seus filhos e familiares?
Não. Moro na rua. Mas sempre eu passo na casa do meu pai. Meus dois filhos de 10 e 9 estão sendo criados pela minha irmã e todo mundo mora na mesma casa. Eu não durmo lá. Prefiro ficar pela rua, em qualquer lugar que eu chegar eu durmo.

Tem vontade de deixar o vício do crack?
Apesar de saber que ele faz muito mal, não quero deixar de fumar o crack. Já me perguntaram se eu queria fazer tratamento, mas não quis. Na minha família só eu que uso essa droga e vou continuar vivendo assim mesmo.

Mais da metade dos usuários têm renda mínima

Grande parte dos usuários de crack do estado estão em situação de rua ou de vulnerabilidade social. A pesquisa da Fiocruz Pernambuco mostrou que 52% dos usuários entrevistados tinham renda de um ou menos salário mínimo por mês. Para tentar ajudar essas pessoas, é preciso que a sociedade e o poder público trabalhem juntos. O governo do estado, através da Secretaria de Desenvolvimento Social, Criança e Juventude (SDSCJ), oferece assistência aos usuários de crack por meio do Programa Atitude. Com foco em reduzir os riscos e danos individuais, sociais e comunitários dos usuários de drogas, o Atitude foi criado em setembro de 2011 e hoje está inserido na programa de política estadual de segurança pública, o Pacto pela Vida.

Em seus cinco anos de atendimento, o Atitude fez mais de 60 mil atendimentos. Desse total, 51.365 foram realizados pelas equipes do Atitude nas Ruas, 6.849 pessoas foram atendidas nos Centros de Acolhimento e Apoio, 2.126 usuários passaram pelos Centros de Acolhimento Intensivos e 122 pessoas foram beneficiadas pelo Aluguel Social. Segundo a superintendente de Atenção aos Usuários de Drogas do estado, Malu Freire, a maior demanda do Programa Atitude é espontânea. “Nas casas do Atitude o usuário pode tomar banho, dormir, fazer as refeições diárias e ainda ficar protegido das ameaças. Alguns podem pernoitar nas casas devido ao risco de serem assassinados na rua”, detalhou Malu.

A maior parte das pessoas atendida pelo programa é de homens com idades entre 20 e 29 anos, de cor negra, com renda familiar de até um salário e baixa escolaridade. De acordo com a SDSCJ, dos cadastros realizados pelo programa ao longo dos cinco anos de funcionamento, 69% eram usuários de crack, 44% estavam ameaçados pelo tráfico e 41% deles já sofreram tentativa de homicídio. “Quando chegam nas casas do Atitude, os usuários não podem fazer uso de nenhuma droga e existem regras a serem seguidas. Eles contam com atendimento de psicólogos, assistentes sociais e enfermeiros. Além disso, podem participar de várias atividades como oficina de música e culinária”, detalhou Malu Freire.

No Recife, a Secretaria de Enfrentamento ao Crack e outras Drogas (Secod) é estruturada em três eixos de trabalho: prevenção, tratamento e inserção produtiva e ressocialização. O gerente do eixo de cuidado e tratamento da Secod, Antônio de Pádua, explica que as ações da secretaria estão pautadas na prevenção, na perspectiva da garantia dos direitos humanos, ofertando cuidado e proteção aos usuários e suas famílias. “Realizamos visitas nos locais onde existem cenas de consumo no Recife e conversamos com as pessoas que estão nesses lugares. Toda terça-feira, uma equipe vai até a Avenida Prefeito Artur Lima Cavalcanti, no bairro de Santo Amaro, onde as pessoas têm dificuldade de acesso a serviços. Além disso, fazemos encaminhamentos para unidades de saúde e acompanhamento do uso de medicação”, ressaltou Pádua.

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