Chefe da Divisão Estadual de Narcóticos (Denarc), Riad Braga Farhat aponta que dinâmica intensa do tráfico serve do “nóia” ao “magnata” na região central

Felippe Aníbal

Brunno Covello

Ao menos em Curitiba, o tráfico de drogas está longe de se restringir a favelas ou a bairros periféricos, como pode sugerir o censo comum. Com uma dinâmica que envolve ramificações e logística de distribuição, as áreas centrais da capital paranaense – incluindo os chamados “bairros nobres” – se consolidaram como pontos fortes de venda de entorpecentes. Do crack à cocaína. Do “nóia” ao “magnata”.

No início do mês, um caso chamou a atenção para o fenômeno: uma mulher foi esquartejada no Centro Cívico. Segundo as investigações, ela foi assassinada em um apartamento que era u sado por traficantes que atuavam na região central da cidade. Em outubro, uma operação prendeu quase 30 pessoas, suspeitas de envolvimento com o tráfico no Centro. Ambas as ocorrências evidenciam o que a polícia já sabe e luta para combater: a efervescência da venda de drogas na área.

“O Centro é o maior ponto de tráfico de Curitiba. Em toda a região central, [a prática] é muito forte, tanto em volume [de drogas vendidas], quanto em movimento, quanto em valor [movimentado]”, apontou o delegado Riad Braga Fahrat, chefe da Divisão Estadual de Narcóticos (Denarc), da Polícia Civil do Paraná, em entrevista à Gazeta do Povo.

Dinâmica

O comércio de entorpecentes na região central se caracteriza por ser um “microtráfico”, em que pequenas quantidades são negociadas a cada venda. As substâncias não ficam com os traficantes, mas escondidas em locais próximos, como floreiras, bueiros ou canteiros. A estratégia dificulta a ação da polícia, já que, se o suspeito for abordado, ele não estará portando drogas.

“O comprador chega a pé ou de carro, fala [ao traficante] quanto quer. Outro corre até onde está a droga, pega e faz a entrega. Tudo isso dura 20 segundos. Sempre tem outros dois ou três [traficantes] dando cobertura”, aponta Farhat.

Esses grupos mantêm sempre um volume pequeno de drogas nesses “esconderijos externos”. “Umas 50 buchas, no máximo. Nunca mais que isso”, aponta o delegado. Porções maiores ficam escondidas em hotéis, pensões ou apartamentos, mantidos pelos traficantes para operacionalizar o negócio. As quantidades mantidas nos imóveis, no entanto, também não são grandes e precisam ser repostas diariamente, o que exige das quadrilhas uma logística intrincada de abastecimento.

“Nesses hotéis ou apartamentos, eles mantêm em torno de 100 gramas. Quando acaba, trazem mais de bairros de fora da região central. É uma logística grande, com um giro intenso. Tudo para fazer com que, se algo der errado, não seja configurado o tráfico”, explicou Farhat.

Essa dinâmica usa exclusivamente pequenos traficantes, que são abastecidos por médios ou grandes vendedores de drogas, que jamais permanecem na região central. Por isso, operações pontuais, em geral, terminam com a prisão de traficantes inexpressivos, que são rapidamente repostos pelas engrenagens do tráfico.

“Os 30 que a gente prendeu em outubro ainda estão presos, mas os pontos que eles operavam já foram retomados por outros traficantes”, apontou o delegado.

Focos

Por isso, a Denarc costuma atuar em várias frentes de investigação, focando tanto nos grandes e médios traficantes, quanto nos varejistas. Hoje, a Divisão tem em andamento cerca de 30 investigações em todo o Paraná, quatro delas em Curitiba.

“A prisão do pequeno traficante, embora implique em pouca droga, traz uma repercussão social muito grande para a sociedade. Porque esse pequeno traficante é o que mais incomoda a região. É ele que anda armado, que mata, que coopta criança e adolescente para o tráfico”, disse o chefe da Denarc.

Para caracterizar o tráfico desses “varejistas” e produzir as provas, a polícia tem usado a tecnologia. Na operação que prendeu quase 30 pessoas no Centro, os investigadores filmaram a ação dos traficantes por semanas. Mais de duas horas de gravações foram anexadas ao inquérito policial, que terminou com o desmantelamento da quadrilha.

Drogas e clientes

Segundo a Denar, o tráfico na região central serve a um público diverso. “Dos nóias aos magnatas”, resume o delegado. Por isso, os traficantes costumam oferecer três tipos de drogas: crack, maconha e cocaína. Há ainda, outra vertente, que fornece entorpecentes sintéticos – ecstasy e LSD – e cocaína a bares e baladas, principalmente do Batel.

Apesar de não ser uma regra, o delegado aponta que as drogas podem ser vinculadas a um tipo específico de cliente. “A cocaína vai para o consumidor de chega de carro, encosta e compra. Quase 100% do crack é vendido para quem está a pé, como moradores de rua. A maconha já é mais o perfil de jovem de classe média. O público é bem eclético”, pontuou.

Particularidades

Com 23 anos de Polícia Civil e um currículo que inclui 15 anos de Grupo Tigre (a elite da corporação) e um ano e meio como delegado-geral, Riad Farhat avalia que o Brasil sofra um tráfico de drogas tão intenso quanto o de países europeus ou dos Estados Unidos. Uma das diferenças, no entanto, diz respeito ao fato de o tráfico brasileiro estar diretamente relacionado à violência.

“Na Europa, há um tráfico desarmado. Aqui, os traficantes se misturam com a bandidagem armada. É um estilo belicoso e muito mais violento”, afirmou.

Além disso, o Brasil tem um desafio adicional imenso: o país tem uma fronteira gigantesca, com nações que produzem entorpecentes, traficados internacionalmente. “Se os Estados Unidos não conseguem coibir o tráfico, imagine nós, com essa fronteira. Se a guerra deles é perdida, a nossa é o quê?”, comentou.

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