Suicídio: como falar sobre o ato sem promovê-lo

BBC Brasil

Neste mesmo mês, que marcou o lançamento no país da série 13 Reasons Why – produção da Netflix sobre uma adolescente que registra em vídeo os motivos que a levaram a se suicidar -, houve um boom nas buscas por imagens relacionadas a suicídio.

Abril também trouxe notícias sobre suicídios consumados e tentados em diferentes Estados do país, como Paraná, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Paraíba. Em alguns casos, a polícia investiga possível relação com um jogo virtual chamado Baleia Azul, que estaria induzindo adolescentes a automutilações e ao suicídio.

Os casos reacenderam a discussão sobre como tratar temas polêmicos sem incentivar imitações no mundo real, o chamado “efeito Werther”, referência a um livro do século 18 que desencadeou uma onda de suicídios na Europa.

Falar sem promover

Para a psicóloga Karen Scavacini, coordenadora do Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio, não falar sobre suicídio pode ter um efeito tão devastador quanto falar de maneira inadequada.

“Quanto maior o silêncio e segredo em torno de um assunto tabu, pior para quem lida com ele. Poder falar e contar a história pode ter um efeito curativo em quem lê e em quem escreve”, defende Karen.

Autora de Mentes Depressivas – As Três Dimensões da Doença do Século (editora Globo), a psiquiatra Ana Beatriz Silva menciona a onda de suicídios atribuída ao lançamento do livro Os Sofrimentos do Jovem Werther, obra de Goethe de 1774 em que o protagonista se mata após um amor não correspondido.

Como reação, o livro foi recolhido e proibiu-se a discussão sobre o suicídio por acreditar que seria algo que incitasse a prática.

“Estima-se que 90% dos suicídios poderiam ser prevenidos. Isso faz pensar que esse preconceito histórico em falar sobre suicídio não ajudou a prevenir essas mortes”, diz Silva, citando estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Silva avalia que os padrões da mídia ao relatar casos de suicídio também não contribuem para resolver esse problema social.

“Só falamos em suicídio quando um famoso se mata. Não se pode glamorizar um suicídio, transformar o suicida em herói. Um suicídio é um ato de desespero”, diz ela, para quem relatar a trajetória de sofrimento da pessoa é mais relevante do que informar, por exemplo, métodos empregados no ato.

Para Scavacini, do Instituto Vita Alere, apresentar alternativas e divulgar locais ou formas de se obter ajuda é outro meio de falar de suicídio com maior atenção à prevenção.

“Se o relato indica ao final onde a pessoa pode receber ajuda, isso se transforma numa rede de cuidado. Muitas pessoas estão tão perdidas e impactadas que mesmo uma sugestão de caminho a seguir faz grande diferença”, orienta.

Catarse coletiva

Para a professora de Comunicação da Universidade Federal Fluminense Renata Rezende, o excesso de referências sobre suicídio, com aumento repentino na circulação de relatos na internet, é exemplo de uma “catarse coletiva”: impacto amplificado, nas redes sociais, de assuntos e práticas que são objeto de tabu.

São assuntos, diz ela, geralmente ligados à esfera do segredo, do proibido e que, por isso, despertam a curiosidade.

Rezende afirma que o aumento do interesse pelo suicídio não significa que a prática esteja sendo mais estudada. Pode ser, por exemplo, que a tendência seja apenas um desabafo de pessoas tocadas de algum modo pelo assunto.

Daí, diz a professora, a importância de observar como essas catarses se manifestam.

“Muitas vezes, na falta de conversar com um amigo ou procurar tratamento psicológico, o usuário faz sua catarse no espaço que tem: seu perfil nas redes sociais”, afirma.

Algo semelhante, considera Rezende, ocorre com a relação com a morte. “Com as redes sociais, as pessoas começaram a falar mais sobre morte, a fazer memoriais digitais para amigos e parentes, falar das suas dores”, diz.

‘Gatilhos’

Para a psicoterapeuta Alessandra Ramasine, voluntária há sete anos do Centro de Valorização da Vida (CVV), serviço de apoio emocional e prevenção do suicídio, usar as redes sociais como “mural” de desabafos nem sempre é uma boa ideia, seja para quem relata ou lê.

“Para relatos de experiências, especialmente as doloridas e violentas, é necessário um ambiente seguro, de acolhimento para dores e memórias”, afirma Ramasine. “Do mesmo modo, esses relatos causarão impactos e consequências que nem sempre poderão ser administradas individualmente.”

Impactos negativos em quem lê, ouve ou assiste a reproduções de violência, sexo ou morte, desencadeando fortes processos emocionais complexos, são chamados de “gatilhos”.

“Uma cena de suicídio pode causar muitos impactos na vida de um jovem por meio do gatilho, especialmente quando esses jovens estão fragilizados, angustiados e perdidos nas questões cotidianas, sem apoio e orientação, desconectados com a vida”, afirma Ramasine.

Segundo ela, jovens que enfrentam falta de oportunidades de desenvolver um projeto de vida, de planejar o futuro e construir identidade por meio de autoconhecimento, autoestima e autoconfiança podem ser os mais afetados.

Nesse sentido, a psicoterapeuta diz ver aspectos positivos e negativos na série da Netflix sobre suicídio. É útil ao lançar um alerta sobre o problema a pais, professores e amigos, mas prejudicial ao retratar o ato de forma extremamente realista.

Renata Rezende, da UFF, sugere que quem publique relatos em redes sociais sobre suicídio também tome cuidados com o leitor.

O termo “Trigger warning” (aviso de gatilho, em português), por exemplo, tem sido usado na internet, como em blogs feministas, na introdução de textos com relatos de vítimas de estupro.

“A importância desse aviso é prevenir e avisar que os assuntos abordados podem desencadear processos emocionais complexos, dependendo do modo de recepção de quem os assiste ou consome”, afirma a professora.

Mostrar ou não?

No Brasil, a taxa de suicídios na população de 15 a 29 anos subiu de 5,1 por 100 mil habitantes em 2002 para 5,6 em 2014 – um aumento de quase 10%, segundo dados do Mapa da Violência 2017. O estudo é publicado anualmente a partir de dados oficiais do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde.

Para Ana Beatriz Silva, como o suicídio normalmente está associado a múltiplos fatores, físicos, sociais e de personalidade, uma cena só será um fator desencadeante caso a pessoa apresente “um quadro de alteração de comportamento, principalmente a depressão.”

A psiquiatra disse ter notado um aumento na procura por serviços psicológicos em sua clínica após a “catarse coletiva” motivada pela discussão cultural sobre suicídio. Segundo ela, a maior parte de seus pacientes adolescentes fez questionamentos sobre suicídio motivados pela série da Netflix.

“Eles me perguntavam: ‘Qualquer um pode se suicidar?’ ‘Como uma pessoa se deprime?’. Ou seja, para aqueles que tem contato com uma ajuda psicológica ou que não apresentam uma alteração comportamental, a série foi capaz de despertar uma curiosidade positiva”, diz.

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