Atividade de gene em região do cérebro é ligada à depressão

O GLOBO

Ação em neurônios pode gerar suscetibilidade ou resistência ao estresse

POR CESAR BAIMA

RIO – Embora fatores ambientais como a perda de entes queridos e estresse crônico tenham um papel central na depressão, hoje sabe-se que a genética também tem grande influência no desenvolvimento do transtorno. E um dos genes chave por trás disso, identificado originalmente em 2006 e relacionado com a depressão em 2011, é o chamado Slc6a15. Mas agora cientistas da Escola de Medicina da Universidade de Maryland, nos EUA, desvendaram os mecanismos pelos quais o gene tanto pode aumentar a resistência de um indivíduo às agruras da vida quanto permitir que ele desabe na depressão mesmo em situações “sublimite”, abrindo caminho para a pesquisa de novos tratamentos para a condição, que afeta mais de 300 milhões de pessoas em todo o mundo e está por trás de boa parte dos quase 800 mil suicídios registrados anualmente no planeta.

No estudo, publicado nesta quinta-feira no periódico científico “Journal of Neuroscience”, os pesquisadores liderados por Mary Kay Lobo, professora do Departamento de Anatomia e Neurobiologia da Escola de Medicina da universidade americana, realizaram inicialmente experimentos com camundongos para avaliar o funcionamento do gene em uma população particular de neurônios sob diversas condições. Em 2006, a própria Mary Kay e colegas já tinham sido responsáveis pela descoberta de que o Slc6a15 era ativado em células de regiões específicas do cérebro, então, na nova pesquisa, eles resolveram focar em um subgrupo de neurônios do chamado nucleus accumbens, área que tem um papel essencial nos circuitos de recompensa do órgão.

— Este estudo realmente joga luz em como os níveis (de atividade) deste gene nestes neurônios influencia o humor — resume Mary Kay. — Isto sugere que pessoas com níveis alterados (de atividade) deste gene em certas regiões do cérebro têm um risco muito maior de depressão e outras desordens emocionais relacionadas ao estresse.

Segundo os cientistas, quando submetidos a intenso estresse social — exposição a camundongos maiores e mais agressivos —, animais normais tendem a se recolher e mesmo evitar suas comidas preferidas, no que é considerado um modelo de comportamentos depressivos. Assim, após submeter os camundongos do experimento a repetidas situações de estresse social, os cientistas verificaram que a atividade do gene Slc6a15 gene nos neurônios responsáveis pelo transporte da dopamina, neurotransmissor intimamente ligado aos circuitos cerebrais de recompensa, no nucleus accumbens, chamados D2, foi significativamente reduzida.

Diante disso, os pesquisadores repetiram o experimento com camundongos geneticamente modificados para terem uma menor atividade do gene em seus neurônios D2. Neste caso, os animais, quando submetidos a situações de estresse, sucumbiram ainda mais facilmente aos comportamentos depressivos. Por outro lado, camundongos também modificados para terem a atividade do Slc6a15 nos seus neurônios D2 reforçada mostraram uma resposta mais resiliente às condições estressantes.

Por fim, os cientistas examinaram os cérebros de humanos com histórico de depressão severa que haviam cometido suicídio. Eles observaram que no nucleus accumbens destes órgãos o gene exibia marcas de desativação, numa indicação de que a influência do gene no humor e no comportamento não se limita aos camundongos e também pode ser estender aos humanos. Segundo Mary Kay, embora ainda não esteja totalmente claro como o Slc6a15 atua no cérebro, aparentemente ele tem um papel central na regulação dos níveis dos vários neurotransmissores no órgão. Assim, ela considera que pesquisas futuras possam levar ao desenvolvimento de novas terapias para a depressão que tenham como alvo o gene.

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