Comunidade Terapêutica Rural Santa Carlota comemora 05 anos de trabalho

“A Santa Carlota recebe os candidatos vindos de diferentes encaminhadores do qual o CRATOD é o maior e imediatamente os mesmos são acolhidos com respeito e amor” Mauricio Landre

*Por Adriana Moraes

Com o avanço do consumo de drogas em todo o país, as Comunidades Terapêuticas oferecem abordagens eficazes para o tratamento da dependência química. Importante falarmos de tratamento e do cuidado com o dependente químico. Destaco o trabalho realizado pela Comunidade Terapêutica Rural Santa Carlota, que este mês completa 05 anos de trabalho.

As comunidades terapêuticas são ambientes de internação especializados, presentes em mais de 60 países, que oferecem programas de tratamento estruturados e intensivos, visando a obtenção e a manutenção da abstinência, inicialmente em ambiente protegido, com encaminhamento posterior para internação parcial e/ou para ambulatório, conforme as necessidades do paciente. [1]

Vamos conhecer melhor a Comunidade Terapêutica Rural Santa Carlota. Conversei com o Coordenador Técnico da Comunidade Sr. **Mauricio Landre, que gentilmente, nos passou diversas informações importantes.
Sr. Mauricio iniciou a conversa dizendo que: “O nosso programa e a composição de nossa equipe têm atendido dependentes graves de álcool e drogas com ou sem comorbidades, com algumas restrições ao grau de comprometimento, estabilizadas e que não coloque o paciente em risco nem a outros membros da CT Santa Carlota. Comprometimentos psiquiátricos graves não são elegíveis para esse modelo, principalmente nos casos de crises agudas ou refratários que diante desse quadro não se beneficiam com as características terapêuticas das CTs.”

A Comunidade Terapêutica Rural (CT) Santa Carlota tem a capacidade de atender 100 dependentes graves de álcool e drogas, do sexo masculino, acima de 18 anos, sendo que desse número, 75% são para encaminhamentos do CRATOD e os demais da região da DRS14 e outras regiões do Estado de São Paulo, através de uma parceria público privada entre a Secretaria de Estado de Saúde do Estado de São Paulo e o Instituto Bairral de Psiquiatria.

Acompanhe a entrevista:

1) Como funciona a Comunidade Terapêutica Santa Carlota e qual sua ligação com o Instituto Bairral de Psiquiatria?

É importante entender o funcionamento das Comunidades Terapêuticas no geral para podermos compreender algumas ferramentas e recursos comuns entre elas.

O primeiro ponto importante é que a decisão de ir para uma reabilitação na CT é do indivíduo, não é da família, médico ou do juiz.

O segundo ponto é que o indivíduo, conhecendo o programa e as normas de convivência antecipadamente, esteja disposto ou que deseje realmente parar de usar, ou seja, a abstinência é o objetivo que norteará toda sua escalada em relação ao resgate de seus valores, vínculos, habilidades e sociabilidade.

O terceiro ponto para entender o funcionamento da CT Santa Carlota é compreender a dependência de álcool e drogas sob uma ótica de comprometimento biopsicossocial e espiritual, ou seja, como a dependência é considerada um transtorno crônico que modifica a estrutura e o funcionamento do cérebro (Laranjeira), todas as suas interações, relações, emoções, vínculos acabam por se “organizarem” para manter o consumo e assim, o usuário não “sofrer” das consequências da síndrome da abstinência e da fissura. O tempo de uso prolongado auxilia na construção de uma cultura de consumo que o ajuda a manter e sobreviver no consumo.

A CT Santa Carlota, além de oferecer os atendimentos e intervenções de primeira necessidade tais como exames, alimentação, segurança, nutrição, avaliação clínica e psiquiátrica e material de higiene pessoal dentre outros, entende que esse momento inicial é de difícil adesão, pelo choque cultural que o mesmo experimenta, além da abstinência. Por isso temos uma equipe específica que dá esse suporte aos candidatos, preparando-os para uma imersão no programa de reabilitação, após essa fase.

Estando adaptado, engajado e aceitando o programa, o acolhido alcança a etapa da Recuperação, levando-se em consideração seu perfil e comprometimento, a saber: idade, tipo de droga, tempo de uso e número de internações. Acreditamos que assim, com grupos com características mais homogêneas, podemos utilizar linguagens e experiências que auxiliem na compreensão de si mesmo e das alternativas terapêuticas que necessita desenvolver e/ou utilizar.

Por fim, no momento que demonstra maturidade no processo, o tratamento passa a ser mais individualizado para que atende seus desejos e sonhos, levando-se em consideração suas características e talentos. Essa fase é a Etapa da Reinserção Social, quando o mesmo inicia um processo de transição da CT Santa Carlota para a Sociedade.

2) Qual o processo para ingressar na comunidade e qual o tempo de tratamento?

Para ingressar na CT Santa Carlota na maioria dos casos o candidato morador ou natural do Estado de São Paulo, vem encaminhado de algum serviço de atenção, conhece a programação e aceita participar do processo de reabilitação. O tempo de tratamento varia de indivíduo para indivíduo e leva em consideração suas características pessoais e de uso e o envolvimento com o programa. Em média o período entre 150 a 210 dias (5 a 7 meses) é suficiente para ter sua conclusão.

3) Como é composta a equipe de profissionais que atuam na Santa Carlota? Em diversas comunidades a equipe é formada por dependentes químicos em plena recuperação.  Vocês também dão oportunidade de trabalho aos dependentes bem sucedidos no processo de recuperação?

A Equipe Terapêutica da CT Santa Carlota é um dos diferenciais de efetividade de nosso programa, composta por Coordenação Técnica, psicólogos, assistentes sociais, equipe de enfermagem, professor de educação física e conselheiros que atuam diariamente com os acolhidos. Também temos suporte de médico clínico e psiquiátrico semanalmente além de dois médicos do curso de residência médica (R3), uma vez por semana, participando da programação da CT. Atualmente 8 membros de nossa equipe técnica tem Especialização em Dependência Química graduados pela Uniad-UNIFESP, dos conselheiros, todos com formação em aconselhamento, a maioria estudantes do ensino superior e um deles fazendo especialização.

Dos nossos 20 conselheiros da equipe, 10 são dependentes em recuperação que passaram pelo nosso processo de reabilitação, ajudando a reforçar nossa cultura e programa. São os conselheiros que atuam mais ativamente com os acolhidos reforçando que é possível vencer a dependência e viver uma vida saudável.

4) Em 2011, a Anvisa revogou a RDC 101/01 e criou a RDC 29/11, com o intuito de se aproximar do modelo de Comunidade Terapêutica proposto pela FEBRACT.

O que aconteceu na verdade foi o contrário, a FEBRACT ajudou ativamente na construção da RDC 101/01, porém, as exigências eram muito pesadas para a realidade das CTs no Brasil, o que fez com que 11 anos depois, ainda não se havia efetivado um conhecimento claro e uma fiscalização efetiva das Comunidades Terapêuticas e suas características. Em 2011, as Federações do Brasil, junto com a FEBRACT foram para Brasília tentar que houvesse uma flexibilização de algumas exigências que nos qualificavam como serviço de saúde e que, na verdade, não somos. Somos sim um serviço de apoio a Saúde, com características bem diferentes de serviços de saúde.

O que houve então foi uma flexibilização exagerada, fazendo inclusive que o nome Comunidade Terapêutica, desaparecesse da Resolução RDC 29/11. Nosso movimento ainda busca o reconhecimento dessa abordagem como um modelo eficaz dentro da rede de atenção aos usuários e dependentes de álcool e drogas.

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5) Explique, com detalhes, como a equipe recebe um dependente químico e de que forma começa o tratamento. A medida que avançam no processo, quais os tipos de recursos utilizados na programação da CT?

A Santa Carlota recebe os candidatos vindos de diferentes encaminhadores do qual o CRATOD é o maior e, imediatamente os mesmos são acolhidos com respeito e amor, onde buscamos garantir que suas primeiras necessidades sejam atendidas, no caso alimentação e saúde física e emocional. Transmitimos à todos nossa preocupação com sua saúde, damos boas vindas e encaminhamos para uma avaliação com nossa enfermagem e serviço social. Estando aptos e dispostos a iniciar o processo, através dos conselheiros, os mesmos recebem toda atenção para conhecerem e se alojarem em nossas dependências, recebendo dois conselheiros como referência dessa etapa inicial e um tutor, residente de nível avançado que o acompanhará nos primeiros dias para que o mesmo se engaje e participe das atividades.

Nessa etapa as atividades são voltadas para que os acolhidos conheçam nossa programação e as atividades e grupos que os mesmos terão durante o processo de recuperação. É importante entender que essa etapa é a de maior vulnerabilidade do acolhido, ainda negando ou ambivalente quanto a sua disposição integral de mudanças. Assim, estamos preparados para devagar, auxiliá-lo a engajar-se na programação, respeitando o tempo de cada um.

A nossa espiritualidade, junto de outras atividades que acompanham desde o início o cronograma dos acolhidos, é uma prática diária de reflexão pessoal, através da Bíblia Despertar, que traz os 12 passos junto, para que os valores a serem resgatados para uma vida saudável e disciplinada. Nossa capela tem, representadas em seu interior, 25 manifestações e movimentos religiosos, inclusive para os que não encontraram a sua ou mesmo não têm religião.

Já engajado, os acolhidos passam a receber uma programação diferenciada, com grupos específicos de autoconhecimento, gestão de comportamentos e crises, temáticas, filmes e grupos reflexivos, grupo de 12 passos, grupos de autoajuda e reforço positivo, prevenção de recaída, cronograma semanal, projeto de vida, psicoterapia grupal, dinâmicas, oficinas de música e educação física.

A pressão dos pares, os vínculos sociais se restabelecendo, o amor e o respeito que durante todo o tempo, recebem da equipe e a coerção positiva, ou seja, impondo metas e etapas para serem alcançadas e avançar na estrutura hierárquica e nas etapas posteriores, reforçam que o esforço individual é recompensado com sua evolução no processo e na conquista de iniciar sua etapa de reinserção e reintegração social.

6) A Santa Carlota realiza algum trabalho com os familiares dos dependentes em recuperação?

Diante do perfil de nossos acolhidos, na maioria dos casos de baixa renda e vindos de longe, inclusive de outros estados, que estavam em situação de rua, com os vínculos rompidos ou estremecidos, a participação no processo conosco acontece uma vez por mês na CT, através de visitas e também, através do Serviço Social, que busca já nas primeiras semanas um contato com os familiares para dar notícia dos mesmos e estabelecer um contato inicial que será reforçado à medida que o mesmo evolui no processo. Nas visitas, reforçamos a necessidade de todos os membros da família participarem do processo e dos grupos de apoio para entenderem a dependência e poderem ser um fator de proteção para os mesmos no pós tratamento.

7) Algumas Comunidades Terapêuticas recebem ataques em relação a luta antimanicomial. De que maneira a Comunidade Terapêutica Santa Carlota lida com esses ataques?

 A postura de alguns ativistas do movimento antimanicomial é de total desconhecimento da realidade do modelo de CT, da programação e do objetivo que ajudá-lo a retornar para a sociedade com capacidade de lidar com suas ambições e suas dificuldades. Os mesmos têm uma visão ideológica e acredita que o estado de direito reserva aos dependentes o direito de se tratarem em liberdade, e essa visão é extremamente equivocada em todos os aspectos. Primeiro porque o direito do cidadão é de escolher qual o tratamento que ele deseja e no nosso caso somente se ele quiser receberemos o mesmo e terá uma chance de se recuperar. Segundo ponto importante é que os diferentes graus de comprometimento, justificam uma rede diversificada e deve garantir internação ou acolhimento àqueles que necessitam dessa intervenção, como em todos os tipos de doenças e transtornos. O terceiro ponto, a qualidade dos serviços estão diretamente ligadas com fiscalização e metas a serem cumpridas. Portanto, mesmo os serviços públicos hoje, estão sofrendo pela ausência do estado e da fiscalização para que tenhamos serviços de qualidade. Por último, nossa política pública sobre drogas está muito influenciada por visões e práticas reducionistas, como se não fossemos capazes de auxiliar uma pessoa a viver em abstinência e feliz, exercendo sua plena cidadania. Encaram a abstinência como utopia. Conheço milhares de pessoas que vivem em abstinência e, em último caso, após a experiência de viver numa programação de CT, conseguiu melhorar seu quadro global de uso e, mesmo com alguns episódios de crise, retoma a programação e a qualidade de vida.

8) Fale da parceira com o Programa Recomeço do governo do estado de São Paulo.

A Comunidade Terapêutica Rural Santa Carlota, foi idealizada pelo Dr. Ronaldo Laranjeira que, junto com o Estado de São Paulo, em 2012, convidou o Instituto Bairral de Psiquiatria e eu para construirmos esse modelo que, inicialmente, atendia a todo estado e, depois, como CT inspiradora do Programa Recomeço de 2013, passou a fazer parte, capacitando outras CTs através da FEBRACT e da COED. Digamos que somos a CT que inspirou também o Dr. Ronaldo a levar a proposta de incluir as CTs na Rede de Atenção do Estado de São Paulo.

9) Qual a importância da Santa Carlota na vida dos familiares e dos dependentes em recuperação?

Mesmo quando os acolhidos desistem do tratamento antes de sua conclusão, sua gratidão e seu estilo de vida são influenciados pela experiência da CT Santa Carlota. Na verdade, quem conhece um trabalho sério de CT sai diferente dessa experiência, seja familiar, acolhido ou profissional da equipe. O fato de falarmos muito sobre qualidade de vida, esperança, motivação, capacidades, respeito e amor, contribui para que a adesão e o aprendizado dessa maneira de viver se torne um objetivo de vida. Todos saem melhor.

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 Agradeço Sr. Mauricio Landre pelas informações!

*Adriana Moraes – Psicóloga da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina) – Especialista em Dependência Química – Colaboradora do site da UNIAD (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas).

**Mauricio Landre – Assistente Social – Especialista em Dependência Química – UNIFESP  – Coordenador Técnico da Comunidade Terapêutica Santa Carlota

Referência

[1] O tratamento do usuário de crack – Marcelo Ribeiro, Ronaldo Laranjeira (Orgs) 2ª edição – Porto Alegre: Artmed, 2012.

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Sobre Clínica Alamedas

A dependência química está relacionada a diversas questões, seja no aspecto psicológico, biológico, social, econômico ou cultural de toda a família e pessoas ao redor do paciente. A clínica Alamedas possui uma estrutura completa com profissionais competentes e experientes para ajudar cada paciente e a sua família a superar a dependência química, com qualidade de vida e saúde.
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