Alcoólicos Anônimos acumulam histórias de sofrimento e de ressurreição

Correio Braziliense

Nos últimos anos, a preocupação fica pelo perfil cada vez mais jovem dos frequentadores

Otávio Augusto

Em três décadas, houve um rejuvenescimento substancial dos integrantes do grupo na capital do país

Em 5 de setembro, os Alcoólicos Anônimos (AA) completam 48 anos em Brasília e 70, no Brasil. Mas a data comemorativa traz um alerta: em três décadas, houve um rejuvenescimento substancial dos integrantes do grupo na capital do país. Se, em meados dos anos 1990, quem buscava ajuda permeava a casa dos 50 anos, hoje jovens entre 20 e 30 representam a maior parcela desse público. Isso significa que a cervejinha de domingo ou o vinho a mais no jantar têm causado problemas cada vez mais cedo. O cenário, apesar de preocupante, traz um alívio. Nunca tanta gente procurou ajuda. Somente no DF, 3 mil pessoas participam das reuniões de tratamento.

Neste ano, duas pesquisas colocaram o Distrito Federal no centro dessa discussão que há tantos anos é a bandeira dos AA. Um estudo feito pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) mostra que o DF é a unidade da Federação que mais consome bebida alcoólica no país. E um levantamento do Ministério da Saúde é ainda mais preocupante. Brasília é a quarta capital que mais consome álcool de forma abusiva — 22,6% dos entrevistados disseram beber em demasia.

Para quem tem controle sobre as bebidas alcoólicas, o líquido não é grande problema. Entretanto, para uma parcela da população, os goles são um risco iminente. É que, em casos de alcoolismo, doença que atinge cerca de 10% da população, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a incapacidade de controlar a ingestão devido às dependências física e emocional degringola de tal forma o comportamento, que um amigo ou parente parece se transformar em outra pessoa. Na última quarta feira, a reportagem reuniu três alcoólatras para debater o assunto. Eles participam de encontros dos AA e são taxativos: é preciso mais atenção a esses casos.

A família do advogado Benjamim*, 34 anos, se chocou quando ele esfaqueou um homem em um bar na Asa Norte e agrediu um sobrinho, à época, com 20 anos. O policial militar da reserva Fernando*, 55, bebia e abria fogo indiscriminadamente em quem encontrasse pelo caminho. Uma vez, atropelou um casal em Valparaíso. O bancário aposentado Luiz*, 73, vendeu um carro e se endividou para manter o vício. O casamento ficou por um fio. A seguir, o leitor confere como o álcool atrapalhou a trajetória de pessoas comuns, mas que perdiam os limites após o primeiro gole.

“Nem os meus filhos queriam me abraçar”

Há mais de uma década, o policial militar da reserva Fernando, 55 anos, não bebe. A mudança ocorreu após um rompante extremo. Ele quebrou toda a casa onde vivia com sua mulher. “Até os ovos, eu joguei nas paredes. Nada ficou inteiro. Os vizinhos chamaram a polícia”, relembra. Foi o estopim para acabar o casamento de 25 anos. A situação saiu do rumo de tal forma, que, aos 44 anos, ele acabou internado em uma clínica de reabilitação. Os dois meses de hospitalização mudaram a história. “Eu saía de casa com duas camisas no carro. Sempre que atirava em alguém, eu trocava. Dirigia sem a menor condição. Se eu não parasse de beber, eu morreria”, avalia.

A depressão o acompanhou durante muito tempo. “Eu significava o fim da festa, a briga e a desordem. Nem os meus filhos queriam me abraçar”, lamenta. Fernando chegou a ser encontrado dormindo em uma caixa d’água, no alto de um prédio. Outra vez, desapareceu por três dias. Em sua companhia, ficavam apenas a arma de fogo e a garrafa de cachaça. “Hoje, o que eu vivo é o renascimento. Não tenho de me preocupar onde enterrar a cara. Sofro com algumas lembranças, mas estou vivo e reconstruindo a minha vida aos poucos. É muito triste saber que se tem uma casa e que se não pode voltar para lá.”

Fernando viveu as duas faces do alcoolismo. Ele perdeu dois afilhados para a bebida. “É difícil conviver. É preciso tolerância e paciência. Recolher a pessoa bêbada, vomitada e sem nenhuma condição de responder por si é muito dolorido. Nem sei quantas vezes vi os meus afilhados assim e outras tantas que cheguei assim”, lamenta. Hoje, Fernando participa de dois grupos dos AA — um em Alexânia (GO) e outro, na Candangolândia. “Ajudo as pessoas a entenderem o que eu entendi. E a viverem com um pouco mais de paz. Mas é um dia de cada vez.”

“O álcool transformava o meu jeito de pensar”

Daqui a cinco meses, o advogado Benjamim, 34 anos, será pai. Um pouco antes, o homem alto, forte e de barba volumosa completará quatro anos sem pôr uma gota sequer de bebida alcoólica na boca. “Quando saí da casa dos meus pais, fui morar perto de um bar para sempre ter bebida por perto”, conta. “O primeiro dos meus muitos porres foi aos 14 anos”, revela. Cerveja, uísque e conhaque eram os preferidos. “Mas houve um tempo em que bebia de tudo”, acrescenta.

Durante mais de uma década, Benjamim prometeu a si que largaria o copo. Em vão. “Toda vez que eu brigava ou esquecia o que havia acontecido na noite anterior, falava a mesma coisa. Não chegava a uma semana sem beber”, lamenta. Os episódios violentos traumatizaram a família. Os amigos se afastaram. E o namoro acabou. Hoje, ele está casado com a mulher que um dia o deixou por causa da bebida. “A retomada da confiança é aos poucos. O álcool transformava o meu jeito de pensar e provar que aquilo é um efeito da bebida não é fácil”, destaca.

Ele não encara a bebida como inimiga. “Parei de beber no período de festas de fim de ano. As pessoas escondiam as bebidas de mim. Mas, se ela ficar no canto dela e eu, no meu, não há problema. Hoje, consigo ir a um bar comemorar o aniversário de um amigo. Peço o meu refrigerante, converso com as pessoas, não submeto ninguém a uma situação inconveniente. Mas um dia tive obsessão pela bebida”, reconhece.

“Não é fácil controlar a vontade de beber”

A primeira experiência com o álcool aconteceu na adolescência. A vodca era o ponto fraco do bancário aposentado Luiz, 73 anos. À época, aos 15, 16 anos, bebia para se sentir mais à vontade. Disfarçava os problemas de autoestima com duas doses. “Eu ficava relaxado, conversava mais e me sentia mais bonito”, conta. Com o tempo, a quantidade de copos cresceu. “Passei a tomar três, cinco ou quantos fossem necessários”, recorda, com os olhos azuis marejados.

A vida seguiu, Luiz estudou, tornou-se bancário, casou-se e teve filhos. Em todo o caminho, a bebida se fez presente. As coisas começaram a sair do controle por volta dos 40. O vício impôs a perda de bens materiais, porém, mais que isso, Luiz perdeu valores. “Não tinha responsabilidade. Tinha cargo de chefia, mas como eu questionaria um funcionário se eu estava bêbado no início da manhã? Na maior parte dos dias, eu não conseguia ir trabalhar”, detalha, com a voz embargada.

A reviravolta completou 27 anos. “O alcoolismo não é problema moral, mas sim, de saúde. Não é mau-caratismo. Quando percebi isso, procurei ajuda. Não é fácil controlar a vontade de beber, reconstruir os laços e tocar a vida em frente”, explica. Luiz retomou a rotina aos poucos e trabalhou mais cinco anos até se aposentar. Hoje, coordena um dos 100 grupos dos Alcoólicos Anônimos do DF. “O meu pai parou de beber quando eu tinha 6 anos, mas tenho lembranças de ele perturbando a nossa família. Não queria repetir aquelas cenas”, conclui.

* Nomes fictícios

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